quarta-feira, 30 de maio de 2007

Caminhos

Castelo dos Mouros em Sintra - Portugal

Na cidade soturna
Atrás das velhas muralhas,
Eu contemplo a silenciosa tarde,
Sozinha com minha sombra
E com minha pena.

O vento sacode as copas das árvores,
Levantando em redemoinho
O pó da terra.
A lua está subindo devagar
Para que eu a olhe.

Os caminhos se cruzam
E se estreitam,
Buscando os que estão dispersos,
Juntando os que se separaram.

Eu estou aqui
Olhando tudo sozinha!

O Arquiteto

Ilustração de William Blake

Entediado, em sua particularidade,
Deus esboça os primeiros desenhos
Feitos a nanquim e lápis de cor,
Esfumaçando, aqui e ali, os contornos do Paraíso.

Sem nenhum cálculo, dentro de sua genialidade,
Seu plano criador foi se esboçando com primor,
Nascendo ali, o maior mito de todos os tempos,
O Arquiteto do Orbe Estelar.

Aquele, que nos confins do firmamento,
Esculpia uma pequena joia, que chamou de Terra.

Ele foi o primeiro a perceber o alcance de sua obra,
Mas ainda não estava satisfeito, queria algo grandioso.
Com a modéstia de todo arquiteto, 
Aspirou em sua Gênese,
A possibilidade de um ser igual a Ele.

Começou então, um processo de pesquisas.
Buscou materiais adequados à obra de seu sonho.
Os primeiros esboços mostraram uma forma singular,
De estilo e articulações engenhosas.
Verdadeira herança para o seu sonho terrestre.

Aproveitando o bem sucedido desenho,
Põe o projeto em execução.
Usando a melhor argila de oleiro mestre, começa.
A idéia era enquadrar esse plano de réplica,
Fazendo-o atuar como zelador do Paraíso.

Tira então, de seu glossário secreto,
Uma imagem de homem de semblante
E formas semelhantes a Si.

Estando este ser vazio e sem linguagem,
Enche-o de sopro e de vontade.
Por muito tempo, ele foi seu companheiro,
E sua sombra por longos dias.

Percebeu que esse homem se pôs a fazer prodígios.
Atuava no Paraíso como um perfeito inventor.
Ele se sentia pleno de liberdade 
E conhecia a face de Deus.
Era dono de cada árvore, e bicho inventados,
Cada rio, montanhas e vales, tudo ali eram seus.

Todos os animais caminhavam ao seu lado,
E ele achava isso bom.

As estações lhe mostravam a árvore do Paraíso
E ele conhecia o seu secreto esplendor.
Sabia guardar distância e reverência, 
Assim como aprendera.
Sentia-se livre e feliz 
Dentro daquele universo de mansidão.
Até que alguma coisa urgente 
Começou a nascer em seu coração.

E Deus vendo esse homem na sua quietude,
Envaideceu-se, pois achou que era bom esse silêncio.
Só estranhou um pouco quando o homem
Entregou-lhe uma costela, com olhos sonhadores,
E repleto de esperança!

Confissão

Pintura Naif de Luiza Caetano


Enquanto você dormia
Arrumei meu coração,
Fiz o caramanchão de lágrimas
Vir inteiro para o chão.
As folhas voaram soltas
E meu coração a pulsar,
Pensando agora estar livre,
De seu indiferente olhar.
Enquanto você dormia,
Consertei meu coração,
Mas só te deste conta,
Quando varrias o chão.

terça-feira, 29 de maio de 2007

Casulo

Ilustração de James Browne

Minucioso e quieto
O casulo se enche
De vida e amor.
Lá onde é noite,
Pulsa um botão
De raro esplendor!

Andorinha


Ilustração de Josephine Wall

Há pouco vi voar sobre minha janela
Uma andorinha de asas negras.
Cruzou o espaço azul,
Atravessou a rua
E pousou em meu portão.

Ali ficou quieta e parada
A pensar em sua sina
De ir e vir com o tempo.

Estação após estação,
Volta...
Não pelo sacrifício absoluto da volta.
Mas, para me ver, com meus sorrisos,
Inclinando-me na janela,
Mostrando-me a ela.

Tomamos posse uma da outra,
Do ar que respiramos,
Do calor que nos aquece.
Então...
Voa para pousar em meu ombro,
Depois, apesar de nós mesmas,
Como um vício, retorna e retorna...

domingo, 27 de maio de 2007

Bela Figura

Tela de Degas

Na fluidez do vento
Ela encontra com o suave
Entrelaçamento de gestos sutis
Que sobem e descem.

Às vezes, para no ar,
E olha o firmamento,
Para que sua performance
Congele aos olhos dos simples mortais.

Ela dança a liberdade
Enrola-se no ar.
Caminha no vazio querendo mostrar
Algo além do que vemos.

Consegue penetrar
Em silêncio no espaço
Com a suavidade dos anjos.

Quando salta no tablado,
Não é para se fazer presente,
É para sair de nossos olhos
E encontrar a felicidade.

São os passos clássicos
Voando no contemporâneo,
E seu corpo treme,
Uma mensagem perene,
Que nós sabemos, é amor.

Amor

Pintura de Dante Gabriel Rossetti




A cada dia esperei
Por um vento que me acalmasse,
Que abrandasse a brasa que ardia,
Pesando em minha boca.

Quieta, ansiava como louca
Tua boca sob a minha,
Para voltar a tremer.

O tempo virou tormento,
Esperando esquecimento,
Que eu queria ter em mim.

Indiferente, tu colocaste
Os dias em meu rosto,
Fazendo-me singrar
Num mar de lágrimas e dor.

Tornei-me cega e perdida,
Sem sua boca ferida
De beijos que dei em ti.

Por tudo que fomos um dia,
Só as lembranças não bastam,
Se trago no peito essa dor.
Tens que voltar com mãos de astro,
Marcando-me um lastro,
Numa linha de amor.


sábado, 26 de maio de 2007

A Teia do Cosmo

Pintura de Alan Lee


Eu sou uma solitária viajante,
Que mergulha na teia cósmica
Procurando o indizível.
Reconheço-me nos elementos
E venho à superfície,
Buscar minha essência.

Teço o irreal
E me aproximo dos sonhos
Flutuantes e nebulosos.
Afasto a teia
E vejo todas as possibilidades...

Penetro no hálito de Deus
E sigo num campo de luz,
Até chegar dentro do meu tempo,
Desfazendo-me do casulo invisível.

Daí então,
Tento preencher os detalhes
Da relatividade do Absoluto.

A Enfermeira


Ilustração de Josephine Wall

Chamaram-na para o serviço dos anjos,
E lhe deram pepitas preciosas
No lugar dos olhos.

Ela vem vestida de ar,
Vestida de espelho.
Vem como a luz da alvorada,
Que se côa pelas frinchas da porta.

Sou arrebatada pelo seu sorriso,
E pela luz de seu olhar.
Ela empresta-me seus olhos de pássaros,
Para eu buscar conchas vazias
Nesse mar de luz.

Ressuscito ante seu olhar de doçura.
De olhos lavrados na foz de
Um rio aquecido.

Entra em meu quarto
Como um novelo de ouro,
E sorri como fogos de artifícios.

De seus dedinhos quentes,
Desprende fios de lava vulcânica curadora.
E num segundo
Levanta sua mão de leque
Abanando minha dor.

Arrepio

Pintura de Amadeo Modigliani

Entro calada,
Recolho os fiapos
Que me arrepiam,
Capto suas fendas
E dobras lascivas.

Cresço ao menor contato.
Estou camuflada,
Inflada.

Minha dor é pulsante,
Bate no compasso
De meu coração.

Vem o arrepio
Que percorre a mente.
Meu álibi
Conecta-se com seu sorriso.
Engole-me
E atesta o inevitável:
Sou estrangeira em mim.

Sinto o frio cortante
Do arrepio varrendo
O calor de meu corpo.

E é no seu
Que o meu frio desliza.
Desconheço o calor e a cor,
Camuflada de desejos,
Que pulsa aos pedaços,
Convidando-me ao arrepio.

Venho sussurrando
Que minha ansiedade
De te ter está pronta,
E transborda como água da fonte.

Curvo-me para recebê-lo
Em cada brecha escondida
Neste frenesi de arrepios.
Todas as possibilidades
Mostram-se,
E não tê-lo é insuportável.

Então me colo ao arrepio
E dou-me a essa pele
Cheia de brasas
Que me faz queimar
Num mar incandescente.

Dissolvo-me
Na posse de mim mesma,
Nesse emaranhado de corpos
Que somos nós.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

Irremediável

Pintura de Lord Frederick Leighton


Foi tanta ânsia louca
De te ter dentro de mim,
Que me fiz desatar
Dessa vontade enfim.
Articulei uma lógica
Insensata e cega
De precipitar-me
Atravessando-me em ti.
Decifrei poros,
Descobri músculos,
Penetrei mistérios
Até dobrar-me
Neste frenesi.
Despertei teu rastro
Encontrando algo que
Cintila um astro
Encaixando em mim.
Arrastamo-nos um ao outro
Com a avidez de um louco
Dilatamo-nos,
Eu em ti,
Tu em mim.
E irremediavelmente
Como água limpa,
Derramo-me
Neste corpo urgente
Que sedento sela
Sua vontade em mim.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

O Marcador


Pintura de Josephine Wall

Dentro desta caixa viva
Uma falsa euforia se abala.
Olho pelas frestas
E vejo o inadequado
Refletindo a condição humana.
Estou cega pela densidade
Que envolve tudo.
A angustia do tempo
E das coisas
Mostram-se inteiras,
Mas meu filtro
Que decodifica a plenitude
De tudo
Barra essa visão de ruína.
Trago para mim
A medição da vontade
E consciente deste instrumento
Vejo no marcador
Que o meu prazer
Sem consciência
Arruinará minha alma.
Quero saber o exato de tudo
E me preparo para
A arte de ter prazer.
Lá fora gira um universo,
Mas aqui dentro
Nesta caixa ressonante,
Existem mais!

Ato-me

Pintura de Edmond Françoi Ama-Jean


Preparo o caminho de meu olhar,
Aprendo a linguagem certa.
Mando que minha voz venha,
Mas ela diz que não sai.

Aninho-me dentro da noite
Espero o respingar da lua
Cair em teu rosto súbito,
Mas ela diz que não cai.

Saio só, desse vazio,
Buscando teu olhar que vem.
Ato-me aos teus pés de anjo
Que salta numa lonjura infinda,
Penetro num átrio de estrelas,
Balanço-me no espaço escuro,
Precipito-me dentro de tudo,
Arrebato-me dentro da noite
E persigo o que te contém.

Encontro na dobra do espaço
Um mapa indicando um rastro
Que me diz o que é certo:
Só contigo eu estou bem.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

O Rio


Pintura de John Everett Millais


Deleitarei-me em fontes novas
Que correm para o rio,
Levando pensamentos estagnados,
Que escorrem num vazio.
Permanecerei em completo descanso,
Em comunhão com a água que corre.
Só olharei as pedras quietas
E os tufos de arbustos nas encostas
Que se estancam no estio.

As velhas árvores me olharão,
Indagando esse meu querer
E eu seguirei buscando,
Chuvas de pranto e chuvas riso,
Que me faça te esquecer.


Descerei o rio pela correnteza
E seguirei em redemoinho,
Deixando-me lamber na certeza,
Das folhas de prata que flambeia tudo.

Inundarei-me de gotas
Que serão como amantes,
E uma vontade invisível
Nos fará um par constante.

As lágrimas de uma vida
Serão dissolvidas no rio.
As palavras serão acreditadas,
Quando mergulhar em suas águas.

Sentirei o ar noturno em meu rosto,
Que brilhará como nunca brilhou
Durante o dia.
O vento fustigante e gelado,
Dentro do rio não será nada,
Quando eu girar o meu corpo em torvelinho.
Como um metal derretido,
Serei barco em água cristalina
E barco em rio se torna forte,
Estarei pronta para o oceano.



terça-feira, 22 de maio de 2007

Menina-Moça

Pintura de Egon Schiele

E dela foi nascendo
Uma multidão de coisas novas.
Tudo girava em torvelinho
Fazendo um sentido melhor.
Seus desejos abriam-se
Tornando-se sementes.
Colhiam-se frutos de sua boca,
Seus cabelos ondulavam flores,
E os braços se faziam galhos
Para o abraço desse despertar.

Ela permanecia serena
Nessa volúpia de seu nascer.
Quando o vento lhe fustigava a pele,
Flutuava um respirar de brisa,
Para perfumar minúcias desde o amanhecer.

E como uma pena leve
Deixava-se pousar tão breve,
No invisível das coisas do olhar.

Meu pressentimento nasceu
Do átimo de um de seus olhares.
Vi seu coração quieto
Num trançar de heras
E a volúpia inquieta
De seu caminhar.

Acariciei seus cabelos de seda,
Sentindo um tremor de folhas,
Como um galho verde que se vai dobrar,
Fremindo uma ansiedade louca,
Abrindo-se num clamor de fendas,
Tombando-se a se entregar.

Apanhei-a como a uma fruta,
Suguei sua flor que ardia,
Pulsando um desejo ardente,
Destinado a este meu olhar.

Noite Eterna


Pintura de Magritte


Vem meu amor e abraça-me mais uma vez,
Aquece-me com sua pele encrespada e quente.
Vem com seu almíscar de loucura e suor.
Tira-me desse lugar de sombra
Desenrole essas faixas úmidas
Que envolveram meus pés.

Estou numa noite eterna
Que a morte fez questão de proferir.
Fui engolida como estranha,
Numa esfinge que não é para mim.

Toque minhas mãos meu amor,
Elas tremem de gelo e de pavor.
Sou seu anjo com asas de pedra
Aos poucos a se decompor.

Imploro pelo teu hálito,
Pelos teus carinhos que não tenho mais.
Recolho lágrimas de sonho,
Que vão se juntando para eu voltar.

O Labirinto


Pintura de Magritte

Ali vivia o secreto,
O inatingível, o efêmero e eterno.
Matéria e espírito rondavam
Aquelas paredes de folhas.

Seguir o fio de conduta
Era transformar
A aparência em essência.

O espanto era nutrido
Pelo medo de não ser nada.
O labirinto era uma
Eterna forma de texturas,
Disfarçando o caminho
Com luzes e sombras.

Uma vereda
Ora visível ou invisível,
Explorava a intuição dos passos,
Para no fim aprisionar
Os movimentos num não-lugar,
Só ficando mesmo,
Vestígios inefáveis,
Que me colocavam frente
A um sentido maior de orientação
Obrigando-me a reavaliar o meu olhar.


segunda-feira, 21 de maio de 2007

Sereia

Ilustração de Jim Warren


Agora ela era uma estátua
De mármore branco
E exilada vivia do mar.
Era uma lenda
De um tempo de sereias,
De voz e melodias.

Quieta, parada,
Só trazendo consolo
A quem a olhasse.
Tão pálida e envolvida
Na consolação das plantas
Que abraçavam sua calda,
Que enrodilhava a rocha
Que a sustentava.

Às vezes alguém chamava
Seu nome por entre as ramagens
E ela olhava com aqueles
Olhos de veludo estático.

E um ser de espumas reluzentes,
Semelhante a Netuno,
Entrelaçava sua calda viva
Nas escamas frias da sereia
E no vão da noite
Deixavam-se abraçar
E serem banhados pelo clarão da lua.




O Flecheiro


Ilustração Maxifield Parrish

Alskabarkan, solta meu coração de tuas mãos!
Gota a gota perco lágrimas de rubi.
Orienta-me!
Deixa que me disparem
De todos os pontos do arco do flecheiro
E voe na cadência dos ventos!
Quero ser a primeira a chegar
Onde o sol levanta
E erguer o teu estandarte
No dorso da Terra úmida e verdejante!
Dá-me teu sonho
Para eu encher as jarras de prata,
E me acalmar em minha aflição.
Ordena-me um lugar
Sem mistério,
Que caiba sua luz
E fale-me tuas palavras devoradoras.
O meu coração há de parar,
Quando tu parares
Tua flecha de seta cintilante no ar.
Meus pés criaram raízes ao teu redor,
Porque já faço parte
Da pele que te cobre.
Agora te envolvo com uma colcha de sono,
E sopro uma leve brisa
Para que te aconchegues a mim.

A Volta de Alskabarkan

Pintura (desconheço o autor)

Estou aqui na eternidade velando
Por ti e por tua alma desde milênios.
E todo esse tempo que é passado
Nem um leve murmúrio ouvi ou senti,
Nem mesmo meu hálito
E meu perfume almiscarado
Incandescem o teu desejo por mim.

Afastei de teu leito
A poeira e as flores mortas,
Só os meus beijos
Tu sentiras neste lugar sombrio.
Aqui mora a eternidade
E eu estou contigo
Na vigília de teu despertar.

Trago-te sempre água fresca
Na esperança de que ao acordar
Aqueça-me novamente.

Conheço tua intimidade
E sei de teus segredos,
Penetrei em todos eles
Tocando-o com meus dedos
E minha língua de fogo.

Acorde Alskabarkan
E faz-me descansar dentro de ti.
Vem dizer-me as palavras
Que quero ouvir.
Vem logo, porque...
Aqui sou eu em ti
E quero ser eu em mim novamente,
Vem...

O Cavalgar de Alskabarkan


Pintura de John Collier

Envolvo Alskabarkan
Em sedas do Vale do Nilo.
Teço para ele
Um manto brocado de sonhos,
Para que possa atravessar comigo,
O rio mais profundo.

Ele está pronto.
Despede-se numa noite de breu.
Seu perfume, suas flores e seu reflexo,
Diziam adeus!

Voltei-me um instante
Para contemplar
Sua imagem resplandecente.
Suspiramos juntos ao ouvirmos
A orquestra de pássaros
Que deixamos para trás.
Ele ainda não sabia,
Mas tornaria ao paraíso.

Os cavalos selvagens
Estavam a nossa espera
Numa nuvem de poeira.

Atravessamos juntos
O rio das tormentas
De irascível fertilidade,
E banhamo-nos
Com a vertigem de nossos corpos,
Nessas águas ofuscantes.

Ele vai ereto, triunfante,
Seu corpo amalgamado
Em flama ardente,
Queima ao meu contato.

Eu seminua, branca,
Lavrada em mármore,
Sou um corpo quente e silente,
Esperando para doar e tomar.

Alskabarkan retira da bainha
Sua espada latejante
De poder púrpura,
Penetra no átrio,
Senhor dos movimentos.

Encolho-me à sombra
De sua proteção,
E entre braços de gotas luminosas,
Vejo chegar sua força de rei.

E fui água fervente
Em suas coxas de cedro.
Cravei meus dentes alongados
Junto aos seus cabelos.

Minha carne foi feita e desfeita,
Até dobrar-se com uma haste,
E quando a escuridão
Acolhia-me em seu seio,
Ouvi cascos de cavalos
Que rondavam a soar
O pavimento de meu palácio...

sábado, 19 de maio de 2007

Mudança


Pintura de Henri Matisse
Estou mudando,
Os objetos passam.
Mudar significa esquecer,
Mudar possibilita o novo.

Empacoto a vida,
As lembranças.
Pouco tenho,
Só mesmo a esperança.

Nos varais descansam
Velhas roupas
Tecidas com o meu destino.
São roupas eternas,
Não mudam,
Só querem o sol,
Nada mais.

Mudo o capítulo
E defino as decisões.
Não sou daqui,
Mas me acostumarei!
Agora estou quieta,
Sem lamentações.
Desamarro os cordões
De meu coração.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

O Quântico de Nós

Pintura de Dorothea Tanning


Meu espaço até você continua,

Apesar da distância de teu olhar

Que muda na indefinição

Das mil partículas que se

Expandem de nossos corpos.


Quando te olho,

Na imensidão do espaço

Que pulsa em meu tempo,

Girando em nós de modo contínuo,

Minha relatividade vai

Até onde você se mostra.


Gravitando em teu mundo

Eu sou você na distância.

Seguimos juntos

Emaranhados numa trajetória

De letras e imagens,

Num estado quântico de ser.


Vamos juntos como uma onda,

Num mesmo cenário distante,

Que se repete,

Aqui em mim e aí onde estás.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Espiral




Ilustração (desconheço o autor)


Fui sacudida em mar aberto,
Navegada em carne tremula.
Afundei nos vãos de seu corpo
De pirata navegante.
Deslizamos em ramificações de gotas
E fui alongada, até extinguir-me em ti.
Giramos num espiral de êxtase,
Pulsando num frenesi cardíaco.

Sua cor espessa
Deslizava em minha carne branca,
Desenhando tatuagens tribais selvagens.
Descobri uma fome desconhecida
E não quero dela ser aplacada.

Reconheço sua flor-da-pele
Resvalando meus sentidos.
Sua cor que nega a minha,
Desperta passagens de lume.
Esquadrinho-me em sua simetria
E sou reduzida a um rabisco desordenado,
A uma linha retorcida
Que brinca em seus dedos
De capitão navegador.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Dois Irmãos

Pintura de Odd Nerdrun

E Abel ia com suas ovelhas
Para o campo mais verdejante.
Em paz consigo,
Tocava sua flauta de caniço.

Ali era o seu esconderijo,
Ali ficava com seus segredos.
Tinha alma grandiosa
E procurava o caminho
Para se engrandecer no Senhor.

Mas Deus quis lhe fixar
Um dia para o termino desse olhar.
E assim fez.

Quando Abel voltava à sua casa
No fim da luz do dia,
Não percebeu um vulto
Que se escondia na agonia.

E foi esse vulto
Que lhe apagou o presente
E todo o seu futuro.

E no fundo da noite,
Abel ficou calado
Pensando como foi
Acabar-se junto com o dia.

Com muito jeito
Caim subiu para o leito
E deitou-se virado para a parede.
Foi virando bem devagar
E se pôs a fitar miríades
De microscópicos pontos
Coloridos, disseminando-se
Na escuridão do quarto.

Caim só se atormentou
Quando Eva lhe perguntou:
Viste Abel, teu irmão?

segunda-feira, 14 de maio de 2007

Essência

Pintura Naif de Hannes Van der Walt - cosmo

Hoje quando abri a janela,
Fui convocada sutilmente a olhar.
Ele circulava pelo ar, por toda parte.

Invisível era esse chamado.
Trazia aos meus olhos,
Uma essência mágica.

Atravessava-me antecipando
Uma alegria despertada
A golpe de urgência.

Debatia-se na vidraça de meus olhos.
Mantinha-se pulsando,
No mesmo compasso vivo,
Deixando-me fisgada e sem fôlego.

Tinha que lhe dar um nome,
Mas que nome daria ao
Esplendor da vida!

domingo, 13 de maio de 2007

O Sol

Ilustração Josephine Wall


Numa atmosfera quente e almiscarada,
Teço o manto do universo.
Costuro estrelas e planetas
Num fio de gás,
Feito de misturas essenciais
Que permeiam o cosmo.

Estonteante é o gás difuso,
Que sai das estrelas mortas,
Quando bato o tecido
Para que se torne claro e limpo.

Comprimi-o em minhas coxas,
Para que não voe ao vento
E eu não perca toda a densidade obtida.

Tento contrair-me
E prendo as bordas do universo,
Num colar de nuvens de calor.

Teço uma grande estrela,
Como um broche de luz radiativa,
Que transformará tudo o que tocar
Em vida.
Assim, nascerei todos os dias para ti.


sábado, 12 de maio de 2007

A Estrela

Ilustração Josephine Wall


A lua de tão clara
Encobria o brilho das estrelas.
No campo de trigo,
As espigas douradas resplandeciam,
Mostrando o ondular do caminho.

A menina descia pela vereda
Das estrelinhas pequenas,
Mirando-se no espelho dos sonhos.

Um fio luminoso ficou estampado
Em sua pupila,
Demarcando a imagem de uma estrela.

Tantos arvoredos, pedras e rios,
Via tudo claramente,
Como se caminhasse num dia submerso de sol.

Vinha deixando um rastro
De lantejoulas em chamas.
Um rastro de chispas cristalizadas de água.
Era como uma pedra preciosa
A andar pelos campos da Terra!
Mirando cada lago,
Contemplando o vasto espelho verde.

Entre um rendilhado de nuvens baixas,
A lua em sua sonhadora obscuridade olhava...
Ela era a estrelinha que caminhava,
Trajando lume e orvalho.
Seus cílios roçavam suas faces rosadas.
Os cabelos dançavam nos ombros
Com doces beijos úmidos.

Passe, passe princesinha de luz!
Olhe os canteiros que Deus plantou para você.

Deixem-na passar!
Diziam as pedras, tombadas no caminho.
Deixem-na passar! Diziam os regatos.
E ela mirava-se neles
Como num espelho.

Todas as árvores curvavam-se a ela
Dando boas vindas.
Ela seguia em frente.
Flutuava de tão contente!
Trazia o coração palpitante,
Por se saber esperada e amada.

E na superfície do mundo,
Deixou-se nascer, luminosa,
Como as Estrelas costumam ser!

sexta-feira, 11 de maio de 2007

A Carta

Pintura de Delphin Enjorlas

A carta é um papel que grita
Palavras de desespero.
Elas escorrem pelas bordas,
Como sangue novo e quente.

A carta é um espaço limitado
Com uma alma latente.
Nela está contida mil letras
De redondas formas,
Que ora se lançam
Num fio de bailarina
Enfeitando o texto,
Ora caí abandonada pela dor
De quem escreve e mente.

Retangular e rosada
É a carta da amante,
Que pede, implora...
Volte!

Quadrada é branca e a carta
Do amado, que responde:
Esqueças!

A carta é um punhal
Solene e breve,
Que fere e fere,
Tantas vezes
Que se diz
Soletre...

Só estamos bem,
Mesmo que breve,
Quando nos consentimos
Rasgá-la
Com as próprias mãos
E o coração leve.

O Cálice


Pintura de Olga Boznanska



Não foi difícil perceber
Aquelas asas escondidas.
Pensei ter visto pétalas de rosas.

Ele gemia sob aquele manto
De pele translúcida
E contorcia-se incomodado
Com a chama de meu olhar.

Mostrava-lhe meu seio majestoso
E ele bebia cada gota
Num cálice transbordante.

Sofregamente ele sorvia
O meu líquido,
Matando sua sede
De transcender-se humano.

Sua febre chamuscava-lhe as asas
E eu sustentava meu cálice
Oferecendo-lhe uma
Oportunidade verdadeira
De tornar-se único
E ser.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Deus Pã


Pintura de John William Waterhouse

Quero estar bem consciente
Quando sentir o hálito de Pã
Tocando sua flauta de caniço.


Ter meus sentidos acordados
E poder ser tudo
Em todos os lugares.


Quero o dia eterno,
E a eternidade no estado das coisas.

O invisível ira mostrar-se
Propondo-me certezas
De ser acariciada
Pela música de Pã
Acreditando no abandono
Dessa delicadeza.

Pã provoca-me
Com sua música sem lógica
E eu materializo-me em flauta
Para ser tocada com loucura.

Vou em seus ombros
Para ver as cores que pintaram
O céu esta manhã.
Deixo que o figurativo me fascine
E todas as suas cores pálidas
Enrosquem-se em mim.

Pã não se mostra a todos,
Faz-se invisível.
O que lhe atrai é seu desejo de sol,
É meu reflexo na água.


Pã vem da Terra do Nunca
Das cercanias do Olímpo no infinito.

Sorrateiramente espia-me,
Abafa-me!
Ele quer saber de minha vida,
Quer vivê-la em mim.


Pã é um desertor do Vale dos Deuses,
Enlouquecido pela beleza dos humanos.
Espanta-se ao ver-me tão sem medo
A espreitar seus passos.

Eu fortaleço-me em sua música e poesia.
Imagino-me ele,
Querendo renascer em mim.
Juntos morremos
Para renascermos em nós.

Caçadora de Mim


Ilustração (desconheço o autor)



Uma luz diáfana rasga a neblina,
Vara o frio, transluzindo tudo.
Tangentes setas atômicas
A cruzar rubra e certa
O sortilégio da musa.


Diana noturna, caçadora de mim.
Surge armada em névoa

De seu mundo verde.

Ninfas se espalham
Formando inscrições febris
Em minha pele alva e quente.


Espalham invocações ao vento,
Escrevem mantras no portal
Onde ela segue presa
A juramentos de liberdade,
Gritados aos quatro ventos
A Júpiter do fogo perpétuo.

Cíntia dos bosques,
Que não dorme,
Que se consome num amor selvagem,
Fazendo-me talismã
De sua vontade caçadora.

As Vidas

Rachel D.Moraes fotografada por Derly Barroso



O ritmo constante dos dias
Só é suportado porque
Entre eles há o sonho.

 
Assim suporto o fardo
Dos meus dias
E memorizo cada entrega,
Cada alegria.

Desprendo-me dos fantasmas,
Imanto-me num fogo
Que não é meu,
Nem dessa época.

Folhas mortas ao vento
Reviverão em outra estação.
Vivo cada dia outras vidas,
Querendo viver você em mim.

(Para Neruda)

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Angelus

Pintura de Tito Corbella

Olho fixamente para
Encarar o que me é impossível.
Arregalo os meus olhos,
Minha boca se dilata,
Minhas asas estão tão abertas
Que sinto uma fisgada de dor.

O passado me segue implacável.
Uma cadeia de acontecimentos
Envolve-me numa catástrofe única.

Tenho meus pés fincados em ruínas.
Não posso acordar os mortos
E colar os fragmentos
Que se prenderam em minhas asas.
Eles impedem-me de fechá-las.
 
Sou impelido com fúria para frente.
Envolvido por um amontoado de ruínas
E por uma tempestade
Que estão chamando de “futuro”.

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Aparência

Pintura de Zygmunt Waliszewski



Vi um homem
Ser reduzido à geometria
Simples da aparência.

Ele era como
Um templo grego,
De mármore negro tumular,
Oprimido por uma
Austeridade opressora
Que profanava seu olhar.

Curtido estava
Em obsessões e segredos.
Entregava-se com fascínio
A um imaginário
Que o reduzia a culpas.

Tinha uma imagem
Ordenada de si mesmo,
Mas era uma densa
Floresta de folhas secas.

E nessa reduzida
Aparência geométrica
Que simplificava tudo,
Via-se uma estrutura
Singular de forma humana.

domingo, 6 de maio de 2007

A Deusa e o Menino


(Desconheço o autor do desenho)

 

Inútil tentar descrever o tanto do quanto vi
Na estampa exuberante daquela deusa de folhas
E pele tostada de sol.

Ela era luz de encantamento e esplendor.
Seus olhos como o sol,
Alcançavam os lugares escondidos.
Lambia cada brecha com sua língua de fogo.

A boca como um vulcão,
Combinava confluências de água e céu,
Céu e terra, modificando suavemente
O meu querer.

As palavras soltavam-se como fumaça,
Os cabelos eram como a selva verde,
Ondulantes, onde pássaros e frutos,
Perdiam-se num enxame de cores.

Seus seios eram dois montes
Marcados num mapa.
Um vale profundo entre eles sinalizava
A relva do paraíso.

Deslizei tudo aquilo,
Tentando descer, temendo,
Com medo de ficar preso naquele
Espaço quente e perfumado
E não querer mais sair.

Rasguei o véu de torpor que me encontrava
E desci tateando a suave maciez de montes e vales.
Senti a redondez de cada pomo
Que se me oferecia suculento e doce.

Deitei nessa paisagem de lago,
Numa água clara que refletia como um espelho.
E lá onde se fechava o vale das tormentas,
Desci mudo, enroscando-me enlouquecido,
Embriagado pelo perfume da noite mais profunda.

Ali onde tudo era invisível
Onde meu guia era o olfato
E o gosto uma delícia inexplicável,
Cantei e dancei nesse enigma,
Nesse regato quente e úmido como o universo.

Conheci o templo das vertigens,
Apredi a arte de mudar
O vapor de meu hálito em sonhos.
Agora adormeço verde e fresco como um menino.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

O Esplendor do Dia

Tela de Luiza Caetano



Hoje saí da hibernação.
Saio da caverna de meus sonhos
E caminho pela floresta
Com meus sentidos renovados.

Celebro este instante de brisa fria
Que brota de miríades de orvalhos.
A luz respinga gotas de claridade
Em meu rosto.

Meus olhos são inundados
Pela beleza fascinante dos fachos
De poeira luminosa.
Penetram entre as brechas das árvores
Parecendo espadas de anjos guardiões.

A manhã é o recomeço de tudo,
É o desejo de se querer celebrar a vida
Não precisando mais de guias.

Vou com a certeza de pisar
Numa rica tapeçaria trabalhada
Com mil pontos de grama.
Bordada com mil folhas que se movem,
Para que eu não possa saber
Qual é a cor mais bela.

A neblina encobre a espessura das árvores
E eu sou abraçada por galhos e folhas verdejantes.

Meu coração bate no compasso da serenidade.
Atravesso a bruma e vou
Ao encontro da nitidez do sol.
É na claridade que as coisas se mostram,
Acordo e me faço ver.

Aqui eu posso brincar e depois voltar,
Para poder sonhar com o esplendor do dia.

Liberta

Pintura de Hamid Rahmat



Eu queria ter um espírito mais livre,
Mais ávido a festas.

Queria perder-me neste vasto mundo,
Deixar-me ir pela vontade.

Rir as gargalhadas de tudo e de todos,
Envenenar-me de delícias,
Viver todos os pecados
Entregando-me inteira a eles.

Minha alma se soltaria
Não cabendo mais em meu corpo.
Queria abrir os meus braços e voar,
Irradiando uma chuva de energia.

Arderia como uma sarça divina,
Convencendo-me que vivo
No âmago de meu existir.

Que entre meus joelhos dobrados
Há vida fecunda,
Que emergiria dissipando o prazer,
Tornando-me calma.

E seria uma árvore
Carregada de frutos
Que recostada dormiria
Em êxtase vitorioso.

Liberta de todos
Os gestos superficiais,
Teria consolo
Nas pequenas insignificâncias,
Espalhando-me livre
Por todo o mundo!

Instantes

RacheL D.Moraes fotografada por Derly Barroso

Sou a luz que reluz
De teu olhar.

Busco-te e penetro
Nestes olhos de abismo,
Quando me transpassa
Com fios de ouro
Que cintilam em mim,
Fazendo-me inquieta.


Entrego-me a ti
E em transe,
Vou por esse caminho
Estranho
Que teimas conduzir-me. 


Fio-me
Nessas gotas de luz
Que faíscam de ti
Marcando o meu destino.

Sei que nunca me bastam
E tento segurar esses instantes,
Que querem fugir de mim.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Menos que a Morte

Pintura de Jorids Web

Sou um estrangeiro em mim.
Torno a voltar num país de sonho,
De luz e de infância
Perdido num vendaval de espumas.


Aquela voz que chamava
Já não existe mais,
Mudou-se para o desconhecido.
Estou só num mundo de lembranças
Que brotam como erva-daninha,
Sempre e sempre.


Estou quieto numa morna solidão de tédio
E minha esperança é essa voz
Que ecoa sem se importar com nada.

Vem me falar ainda uma vez.
Acalma-me neste país de solidão.
Traga-me um sopro de alento
Que morro de estar vivo.


Nesse insondável mistério de você
Que de tão perto se faz tão distante,

Que se mantém escondida de mim,
Num lugar de sonho.

Pare de mostrar-me a todo instante,

Que é preciso menos que a morte
Para me fazer morrer.


(Ganhou o Concurso de Poesia da Proibido Proibir)

O Farol

Rachel D.Moraes fotografada por Ivo Shikida

Transitório e indefinido
É o foco de luz do farol.
Meu barco vaga esquecido
Na cadência das ondas
Escuras e constantes.

Afogo um pranto
De suplício e saudade,
No mais fundo
Deste mar revolto.

Quantas vezes
Deixei-me entorpecer
Pelo mormaço de ar morno
Que penetrava
Pela janela do passado.

Procuro uma serenidade distante,
Envolta em nuvens brancas.

Os peixes consoladores
Brilham escamas
Sinalizando um caminho
Que sigo,
Noite adentro...