Tela de Yuqi Wang
Tu que colhe o que cintila em mim, Faz explodir meu coração, Que ainda que fugaz, Repousa em ti.
Tela de Donato Giancola
O vento transpassa-me
Com sua língua afiada
Meu sangue congela
A sua passagem.
Levanta meu vestido
De musselina branca
Descolando suas
Rendas brocadas.
Aventura-se em meus lábios
Que pedem misericórdia
Por ficar sem fôlego.
Todas as curvas do caminho
Deixam-me no centro
Do redemoinho.
Tudo fica sem margem
E eu parada, no meio dele, pensativa.
Suspiro minhas queixas
Ao espírito do ar de gelo,
Ele se deita cobrindo-me com preces,
Consola-me com gotas de brisa.
Olho o horizonte enevoado
Sentindo esparsas figuras inumanas.
Formam à minha frente
Uma concha cristalina de ar.
Ouço um leve murmúrio adormecido,
Uma voz sem rosto
De imensa ternura que me diz:
Vem, vem ver o silêncio dormir
Sob as planícies
E teu corpo inundado de amor.
Ando sob águas turbulentas,
Afundando na solidão com passos pesados.
Penhascos escuros surgem como recortes de papel
No teatro montado.
Estranhamento é o que sinto dentro da pele
Deste personagem que visto.
Dou franca entrada ao desconhecido
Que insondável, tateia a bilheteria de meu peito.
Tento o esquecimento, a inconsciência,
Para obter uma redenção.
Mas é na escolha da peça
Que recai a dor insuportável,
É na memória dos primeiros dias,
Onde a música era ouvida pelo coração
E não precisávamos das máscaras.
Puxo a cortina e descubro que ali,
Na primeira fila, ainda me esperam,
Com ansiedade e surpresa.
Posso ver no rosto do coração jovem
O brilho do “primeiro olhar”.
Tela de Marcelo Tanaka
Tela de David Edward Linn
Despertei com o frio,
O frio precursor do medo.
Dentes rangiam
Na agitação acelerada da febre.
A revelação se tornou latente,
Forças poderosas traziam imagens
Do profundo do meu ser.
Tomei no ar cada palavra
Sem me importar de onde vinham.
Era um encantamento vindo à luz
Por necessidade, não por escolha livre.
Um turbilhão de palavras
Ia sendo impresso em minha mente,
Num transbordamento de cores.
Revelações intimas
Caiam no papel mostrando um desejo,
Uma espécie de inspiração tensa.
As palavras se ofereciam em formas de imagens
Aguçando minha visão de poeta.
Elas tinham vontade própria
E escolheram a mim,
Para sua manifestação mediúnica.
E foi nessa espécie de transe
Que escrevi o poema revelado.