terça-feira, 29 de junho de 2010

Ideograma




Tela de Yuqi Wang




Quem tocará o alaúde e a flauta
Quando eu estiver além do mundo,
Enrolada nos arabescos
Das constelações?

Qual deus tocará minhas mãos
Com lábios de clarão,
Inclinando-se com solenidade?

Azul anil é o meu vestido,
Para que se confunda
Com a cor dos dedos
Consoladores de Krishna.

Abarca-me em teu seio,
Deus dos oceanos.
Lentamente me desvencilho
Do que me cinge
Sentindo minhas lágrimas
Serem transformadas em diamantes.

Véus se entrelaçam a minha volta,
Sou transportada num carro de corais
Para a câmara das pepitas raras.
Bolhas luminosas dançam
Ao redor de minha cabeça,
Explodindo em mil partículas
De luz, quando surge
O ideograma de meu novo nome.

Concha Cristalina

Tela de Donato Giancola



O vento transpassa-me

Com sua língua afiada

Meu sangue congela

A sua passagem.

Levanta meu vestido

De musselina branca

Descolando suas

Rendas brocadas.


Aventura-se em meus lábios

Que pedem misericórdia

Por ficar sem fôlego.


Todas as curvas do caminho

Deixam-me no centro

Do redemoinho.

Tudo fica sem margem

E eu parada, no meio dele, pensativa.


Suspiro minhas queixas

Ao espírito do ar de gelo,

Ele se deita cobrindo-me com preces,

Consola-me com gotas de brisa.


Olho o horizonte enevoado

Sentindo esparsas figuras inumanas.

Formam à minha frente

Uma concha cristalina de ar.


Ouço um leve murmúrio adormecido,

Uma voz sem rosto

De imensa ternura que me diz:

Vem, vem ver o silêncio dormir

Sob as planícies

E teu corpo inundado de amor.

Mistério da Noite


 Tela de  Carl Rottmann


Levanta-me noite profunda
Faz-me atravessar as portas,
As obscuras constelações.
Faz-me correr as cortinas
Do tempo sem receio.

Leva-me contigo
Neste passeio escuro,
Pois transbordo como água
Só de pensar em ti.

Transporta-me para
O altar das estrelas
E debruça sobre o meu peito
Afagando a minha aflição.

Esta noite é toda minha
E eu serei nuvem nela.
Meu vestido de orvalho
Cintila sob a luz estelar.

Os astros festejam
Minha passagem
Formando um colar de luzes.
Vago sozinha com meu sonho eterno
No mistério da noite
E o dia, de mim se aproxima.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Fiquem de olho nela!

sábado, 1 de maio de 2010

Palco

Foto de Marta Ferreira


Ando sob águas turbulentas,

Afundando na solidão com passos pesados.

Penhascos escuros surgem como recortes de papel

No teatro montado.


Estranhamento é o que sinto dentro da pele

Deste personagem que visto.

Dou franca entrada ao desconhecido

Que insondável, tateia a bilheteria de meu peito.


Tento o esquecimento, a inconsciência,

Para obter uma redenção.

Mas é na escolha da peça

Que recai a dor insuportável,

É na memória dos primeiros dias,

Onde a música era ouvida pelo coração

E não precisávamos das máscaras.


Puxo a cortina e descubro que ali,

Na primeira fila, ainda me esperam,

Com ansiedade e surpresa.

Posso ver no rosto do coração jovem

O brilho do “primeiro olhar”.

A Tecelã

Tela de Marcelo Tanaka


Minha juventude parte com dentes cerrados.

Riscaram meu nome do livro dos vivos.

Entrego-me às chamas rodopiando

Convulsa entre as labaredas do destino.

Língua de fogo acelerada, lambendo

As breves lembranças.


Sou devorada pela luz das chamas

Que se alastram apagando o que fui.

Sou derramada como água de um jarro.

Vou retorcida, esmigalhada pela foice negra.

Coberta num manto de morte,

Abraço meu inverno com pesar e incerteza.

Sigo na aridez da noite temporal,

Que marca o fim das horas.

Dentro do nada evoco o começo de meu tempo

De borboleta menina.


A tecelã do destino sopra em meu rosto,

Como um anjo, sua força de tecer sementes.

Arma-me de volúpia e vontade de querer ser.

Prepara os fios condutores do tear,

Fazendo-me deitar nesse espaço de novelo.

quarta-feira, 24 de março de 2010

O Revelado

Tela de David Edward Linn


Despertei com o frio,

O frio precursor do medo.

Dentes rangiam

Na agitação acelerada da febre.


A revelação se tornou latente,

Forças poderosas traziam imagens

Do profundo do meu ser.


Tomei no ar cada palavra

Sem me importar de onde vinham.


Era um encantamento vindo à luz

Por necessidade, não por escolha livre.

Um turbilhão de palavras

Ia sendo impresso em minha mente,

Num transbordamento de cores.


Revelações intimas

Caiam no papel mostrando um desejo,

Uma espécie de inspiração tensa.


As palavras se ofereciam em formas de imagens

Aguçando minha visão de poeta.

Elas tinham vontade própria

E escolheram a mim,

Para sua manifestação mediúnica.


E foi nessa espécie de transe

Que escrevi o poema revelado.