sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Nave


 Tela de Paul Klee

Minha nave flutua no céu de sua boca.
Rompe tentativas de pouso
E entra rubra, como libélula noturna,
Num campo de luz.

Tangente língua, projétil atômico,
Cruza os dentes buscando palavras.
Escreve inscrições ao comandante
Das delícias.

Punhal púrpura rasga a cortina salivar,
Rompendo a janela em pedaços,
Onda imensa estilhaça os beijos.

Corrente de visco, afoga em tremor
Com poderosa avalanche,
Alastrando em êxtase, alcançando os amantes.

Dentro de Nós

 Tela de Dudi Maia Rosa

Cantarei o teu nome todos os dias.
Cantarei nesta vida
E em tantas outras que tiver.
Vou te achar pelo rastro das estrelas,
Pelo pó que deixares pelo caminho.

Cantarei alto quando o orvalho acumulado
Tornar água represada em mim.
Serei lírica para os momentos de solidão,
Trarei o fogo do êxtase místico para bem perto.

Aprenderei com as mutações
A arrumar o vazio e o cheio.
Serei teu centro
E de mim poderás ver
Todos os pontos de partida.

Serei água fluida,
Serei terra para que repouses.
Serei tudo ao mesmo tempo.

Abrirei teus olhos para a escuridão
Dos mistérios e verás o caminho.
Serei teu prisma de cristal
E tua esfera mágica.

Quando formos um
Estaremos renovados dentro de nós.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Cego



Tela de Liu Yuanshou


Foi na extrema escuridão
Que meus sonhos despertaram.
Levantei-me desse lugar de sombras
Vasculhando na memória,
Onde os pesadelos se fabricavam.

Pedi que meus olhos enxergassem
E pudessem te ver de verdade.
Não queria mais a nevoa que te cobria.

Herdei um milagre
E o depositei sob os teus olhos.
Você pensou demais para pegá-lo
E a penumbra tomou conta de nós.

Tudo foi tão breve,
Nem tive tempo de me mostrar
Antes que você se aterrorizasse
Com o prenuncio de eternidade.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Nosso Ideograma


 Tela de Katarina Lomonosov

Busquei sua voz
Entre o salto dos minutos.
O momento das horas
Caiam minuciosos,
Marcando o pulsar
No piscar dos olhos.

Extremos se juntavam
E tentáculos apertavam
O que era frágil.

À noite do sabbat começara.
Velas se acenderam
E o silêncio penetrara
Nas frestas de luz.
Estranhos ruídos surgiam
Nos cantos.
A magia daquela noite vibrava.

Esperei que viesse,
Que mostrasse a face oculta
No momento mágico.
Meus olhos cor de topázio
Transmudaram em fogo
No final da noite.

Mergulhei na inquietação
Daquelas horas roubadas.
Minha visão foi de sua indiferença,
A minha evocação apaixonada.

Fui incapaz de gritar as letras
Que formavam o seu nome.
Deixei que o vento as levasse
Para um lugar subjetivo
Num canto da Terra.

A torre de marfim que construí
Ficou sem as oferendas aos deuses
E eles não se alegraram.

Todo o mosaico que montei
Nas paredes
Formaram um rastro enigmático
Entre as pastilhas de vidro.
Desenhei um motivo mitológico
Inadequado a minha época.

Cantei para ele, palavras hebraicas,
Enquanto dançava o mistério dos sete véus,
Mas nada foi o bastante nessa roda.

Estou numa ilha perdida,
Num oceano sepultado
Entre corais de sangue.
Lentamente retorno aos raios
Que roubei das estrelas
E tento apagar nosso ideograma.

Universos


 Tela de Kahlil Gibran

Deus paira na fosforescência
Dos anéis cósmicos,
Senta-se no arco flexível de pó cintilante
Tecendo rendas de estrelas
Pensando em nós como contas.

Enfia-nos em fios sutis de dois em dois,
Iguais lágrimas que se juntam formando pingente.
Solta-nos na Terra em voo leve
Deixa que pousemos em notas sonoras
Ditas em sussurros: Amor, amor, amor...
Enquanto sucumbimos, embriagados e famintos,
Dentro da palma de Sua mão que brinca.

Ele ri e treme ante a delícia do gozo terrestre.
Acaricia o sangue que pulsa
Em nossos corações iluminados.

Quando tudo germina na confusão dos corpos,
Ele desce para beber a espuma de nosso mar.
Lambe a água primordial
Na saliva de nossas bocas,
Enquanto explodem universos.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Crepúsculos


 Tela de Liu Yuanshou

Vamos tocar essas cordas tensas de sangue.
Arbusto vivo queimando o momento.
Lava de pedra incandescente,
Recriada entre os risos das ondas.

Bocas que ardem mordidas,
Dedos presos, inacessíveis ao toque.
Gritos de espanto
Imaginando a melodia cadenciada
E o ritmo escarlate do coração arrítmico
Batendo dentro do ventre.

Espírito navegante,
Agitando-se alucinado num barco frágil,
Dentro de um mar viscoso.

Somos resina líquida
Empoçada entre as coxas.
A alegria brota em cascata
Pelos vãos da noite.

Bebo sua voz, seu caule tenso que ferve.
Sou deus sob sua sombra
Que esmaga a loucura de meu ventre.
O fogo que é seu me incendeia.
O mundo nasce das fendas arrebatadas,
E dos espasmos encontrados
No caminho dos nossos crepúsculos.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Lembrança


Fotografia de Irina Todorova-Kuneva

Deste tudo que me lembro,
Você é quem está
Na vigília dos dias
Em que tremi.

As margens cobiçadas
Do meu leito,
Os lençóis que voavam
Pelo quarto
E o caminho da boca
Que se multiplicava
Saltando na sua sede.

Por trás dessas lembranças,
Ouço o farfalhar
De um corpo que se dobrava
Desvairado, sem sombras
Da solidão dos dias.

Saltei no abismo
Encontrando teus braços
Que me mostraram
Caminhos e cavernas quentes.
E no fundo de um leito,
Um lado a lado
De nós dois sonhando.