sábado, 13 de outubro de 2007

Gratidão

Tela de Álvaro Reja

Quando sou grato
Desfruto a eternidade.
Nada nem mesmo a morte
Anulará o que vivi.

Ela só poderá privar-me
Do futuro que não é.
A gratidão liberta-me dele,
Pelo saber alegre do que foi.

Aceito a gratidão como uma virtude,
O dever é amargo e nos torna pequenos.
A alegria da gratidão se transforma
Em amor somado ao amor.

O segredo da amizade
É a alegria comum.
A amizade dança ao nosso redor
E pede gratidão.

Pede que despertemos para dar graças.
Ser grato é levar dentro de si
Um eco de alegria.

O mistério da gratidão
Não é o prazer que temos com ela,
Mas o obstáculo que com ela vencemos.
Ele se opõe ao egoísmo e o supera.

A gratidão é uma virtude leve e luminosa,
Feliz e humilde.
Que graça mais fácil e mais necessária
Que ser grato.
Agradecer é dar, ser grato é dividir.

Essa alegria compartilhada,
Se não se agradece
É porque não se quer partilhar.
A gratidão dá a si mesma.

Ela vem somada a generosidade.
A ingratidão não vive
Pela incapacidade de receber,
Mas porque é incapaz de retribuir,
Não se alegra, não ama.

A gratidão não tem nada a dar,
Além do prazer de ter recebido!

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Uma Sombra

Ilustração de Dan Thompson

Sou o acaso
Nesta cidade de pedras.
Sou uma sombra
De substância ilegível.
A epiderme se solta
Para decifrar mapas,
Achar lugares.
Estátua humana
De concreto falso,
Olha-me com a certeza
De poder capturar-me
Com seu olho de fisgar louco.
Eu tenho um
Gosto ácido na boca.
Só sei dos instantes
Que em flashs atravessa
O meu corpo breve.
Rompe o ar,
Deixando uma promessa
De existência plena.
Mas de repente
Um vento vem
Girando num barulho,
Derruba o que fui e o que sou
Num só mergulho.
E sou de novo
Uma sombra do acaso.

sábado, 29 de setembro de 2007

Sozinho (seg.versão)

Tela de Juan Storm

O princípio da incerteza
Aflora agora.
Acordo na superfície,
O mundo é um olho obscuro.
Avalio o escondido
Perdido
Dentro de mim.
Estou só.
Sigo na densidade
Pairando
Nesta angustia de ser.
Nasci só.
A condição humana
Atravessou minha alma.
Agora sigo
A medir caminhos,
Sozinho a fugir de mim.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Gume

Tela de Jacob Collins

O que me fere
É uma espada entalada
Em minha costela de Adão.

O que te fere
É ver que essa espada
É um espartilho
Que não tem gatilho.

Lateja lâmina
Lambendo a carne
Que sangra
Grinaldas de sangue
Que angra.


Toque retoque
O reboque
Para salvar
A espada amolada
Gume de lume
Mina salina
A me incomodar.

Atrás da porta
Aponta a ponta
Da sorte consorte
Olho agonizante
A dor flui entre nós.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Sozinho

Ilustração de Anthony J. Ryder

O princípio da incerteza aflora
Quando acordo na superfície do mundo e
Olho a obscuridade dos seres em sua solidão.

Avalio o que não se quer mostrar.
Escondido dentro de si o homem está só.
Segue na densidade das coisas
E não consegue atuar na generosidade.

Estou aqui pairando sobre tudo
A refletir nessa angustia de ser.

O homem nasceu para ser sozinho.
A condição humana atravessa sua alma
Fazendo um ser triste e só
A medir caminhos e fugir de si.


domingo, 16 de setembro de 2007

O Meu Rio

Ilustração de Allan Lee

Um rio caudaloso e manso
Passa por minha vila,
Às vezes transborda
Quando há tempestades,
Às vezes seca
Quando é forte o verão.
O mais importante para mim
É que esse rio
Leva-me para o mar
E de lá,
Posso ir onde você está.

sábado, 1 de setembro de 2007

Medusa

Tela de Arnold Böcklin

Um rosto de máscara
Cintilante e hipnótica,
Entrelaçava o olhar do oculto,
Buscando um corpo de sombra.

Cingiam sua cintura,
Serpentes.
Longos cabelos ondulantes
Que por carinho,
Cravam-lhe os dentes.

Pequenas serpentes azuladas,
Dançavam absoluto mistério.
E ela, Medusa dos medos,
Em silêncio formava um império.

O olhar paralisante,
Buscava o coração aflito,
Rondava de perseguir caminhos,
Jorrava emoções em ondas,
Para o mortal encontro em um ninho.