sexta-feira, 20 de março de 2009

Muitas Moradas

Tela de Carel Fabritius



Tenho muitas moradas

Em minha casa.

Em cada canto, uma recordação

De cristalina claridade.


Dentro da casa vivem estações,

Sob o ladrilho das palavras.


O jardim é da primavera.

Ali as folhas sussurram,

Espalham-se equivocando a realidade.

Aceitamos as coisas como vêem.


O outono das salas

Pesam e dizem mais do que dizem.

São doces recordações dos filhos,

Os desenhos rabiscados,

Ondulando pensamentos.


O verão saindo das panelas,

O espírito aventureiro dos temperos,

Capaz de viajar o mundo

Através dos pratos exóticos,

Do lenço na cabeça

Respirando o calor dos aromas.

Incendiamos.


O inverno caminha lentamente à noite

Para a cama, no quarto.

A memória se reserva

A uma existência de lembranças

Antes de dormir.

Contendas, desamor, sofrimento,

Tudo acaba onde o amor acontece

Para tecer as estações da casa.

domingo, 8 de março de 2009

Àcido Diluido

Tela de Egon Schiele


Você não pode imaginar
O que me causou,
Quando imersa e quente
Em seus braços
Você me beijou.

Suavemente ouvi:
Diga sim, para mim!

Nadei no lago dos seus olhos,
Ácido diluído,
Princípio do meu fim.

Quando tapou minha boca
Selando-a com beijos de amante,
Deixou nela pesadelos
De sua vida errante.

Terno e cruel num só tempo,
Tatuou-me com mordidas,
Fez-me inflar de desejos
Mesmo estando eu ferida.

Foste um raio sobre-humano,
De difícil entendimento,
Cobrindo-me com seu corpo,
Arrastou-me num tormento.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Novo Dia

Tela de Bocklin


Vê o que te deu

O inicio de teu dia.

Vê a sombra

Que se esgueira nua,

Arrastando lentamente

Trazendo agonia.


Cria tu asas e voa,

Fuja do inicio de teu dia.


Vê tua sombra sob o lodo

E eu voltada para ti,

Visão de anjo.

Subo sozinha

Levando carícias estonteantes

Apartando de ti

Recordações de amante.


Quando estivermos longe

Apartados pela noite negra,

Eu te direi:

Recomece e tente um novo dia

quarta-feira, 4 de março de 2009

Espora de Prata

Tela de Jacob Collins



Fui intimada ao profano,

Maldita espora de prata

Entrego minha alma ao engano,

Mesmo que ela me mate.


Engulo essa água barrenta,

Engasgo e me deixo levar,

Em meio a pisados gravetos

Tragada por esse vagar.


Uma promessa atola,

Vai grudada em meu peito,

Maldita espora de prata

Encravada em meu leito.


Tormenta

Tela de Gregory Crewdson



O tempo é curto

Para que eu descreva o surto

Que esparramei naquele lugar.


Cheguei retumbando tormentas,

Anunciando que vim para

Esparramar contendas.


Era um lugar isolado.

Pessoas falavam e falavam,

Eu seguia todos

Com olhar velado.


Pisei num canteiro de flores,

Levantei vários segredos,

A negra cor das paixões

E uma coleção de dores.


Farto de ver alcei-me ao redor,

Espalhei folhas,

Levantei o pó das coisas,

Vi nos olhos o horror.


Armei um vendaval aziago,

Embalei tal estrago

E para minha tristeza

Arranquei os brincos de uma princesa.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Suspensa no Ar

Tela de Paul Gauguin



Virei sol
No meio da chuva.
Gotas quentes
Escorrem mordidas.
Virei cachoeira
Num lago,
Virei fonte escondida.

Virei grito
No meio da noite,
Respiro sem fôlego
Um ar que é um açoite,
Porque virei grito,
Porque virei noite.

Fiquei suspensa
No ar de uma boca
Porque ela soprava um sim,
Respirei o que ele tinha
Ficou tudo dentro de mim.

Virei jarro,
Fiquei calma,
Repleta
De um êxtase sem fim.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A Estrada

Tela de Marc Chagall


A estrada que ele rodava

Era de terra dura, escamada,

Com um brilho que esvoaçava,

Agitando sílica no ar.


Couraças de homens brutos

À beira do caminho

Mergulhavam olhos

Dentro do lugar.

Naquele carro, rumo ao sul,

Ele se perdia

Num emaranhado de poeira.


Ia imantado na cabine,

Às mãos grudadas ao volante.

Dos olhos amendoados,

Rasos de líquido verde,

Saltavam tentáculos

Que se enrolavam

Na paisagem atormentada.


Dentro dele
Era tecido um sonho:

Minúsculas conchinhas

Esvoaçavam num delicado bordado.

No fundo de um oceano azulado,

Pulsando no compasso

Do coração dele,
Uma sereia o atraia

Para seus braços.