sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Oriente



Tela de Majid Arvari

Fiz do Oriente um álibi.

Ignorei a realidade do avesso

Fincando meu sonho na adversidade,

Mudei costumes antigos,

Para ficar com você.


Tatuei ideogramas enigmáticos

Da dinastia de Han em pele tremula.

Fui gueixa em ritual sagrado

Vibrando no tempo das cerejeiras.


O quimono azul de seda

Estampava suas flores,

Enquanto meus cabelos

Estavam com os seus

Em nosso tatame.


Escrevi versos de prata

Na espada de meu samurai.

Na janela dos sonhos,

O sino tocava ao vento

Anunciando impaciente

Que éramos esperados

Pelo fogo celestial.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Compaixão

(desconheço o autor)


Ele veio para mim

Como suntuosa claridade

Quando eu era uma estreita sombra

Envolta em nevoa.


Sem aviso prévio entrou pela porta estreita

De meu coração.

Foi como se uma cortina se abrisse

Deixando toda a luz do dia entrar.


Esse mesmo coração, agora largo

Vive o mistério da luz confiado a mim.


Aquele meu singular fascínio

Pelos subterrâneos escuros se foi.

Dedico-me agora a leveza,

Ao esplendor matizado

Da rosa mística da existência.


Acompanho o drapeado que evolui

Em minha roupa transparente.

Vejo asas soltas dançando um existir

De vida dupla.


Aprendo uma outra maneira “do ver”.

O meu olhar não cai somente no olhado,

Mas é sinuoso a buscar o escondido.


Olho para poder novamente ver,

Ele, sempre ali estilhaçando seu olhar em mim

Mostrando-me o mistério da compaixão.


sábado, 26 de dezembro de 2009

O Menino

Tela de William Adolphe Bouguereau



E houve um suave tumulto

No silêncio da noite.

Muitos vieram apressados

Para ganhar as boas graças.


Uma luz vaporosa conferia

Aspecto mágico ao momento.

O rendilhado da manta

Envolvia os traços delicados da criança.


O esplendor estava estampado nos olhares.

Um menino relicário dormia

Sob a luz do olhar de sua mãe,

Qual Serafim num altar.


Ondas flamejantes buscavam

Orações entre os pastores e reis.

Fundiam-se todos num sentimento

Encantador de paz e amor.


Desenhava-se naquele canto

Um coro de anjos.

Ondulantes caracóis dourados

Dominavam o fundo da manjedoura.

Um oceano de fogo ardente

Nascia para iluminar os homens.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Voo

Tela de Dina Valls



Não basta atravessar a alma
Se ela está desfigurada
Pela geometria da desordem.

As árvores foram arrancadas,
Canalizaram o tempo que recua
Impotente, atrás das muralhas do medo.

No céu do desespero, um impensável grito
Realiza nas nuvens, uma realidade de sonho.

Num voo imóvel, misto de êxtase e espanto,
Tento alçar uma alegria
Impossível para o peso de meu corpo.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Escrevendo

(Desconheço o autor)


Escrevo para me resgatar

Da escuridão, da solidão mortífera.

Estanco na fronteira selvagem

De minha consciência

Tentando escapar da obscuridade.


Estou exilada na realidade comum,

Encerrada no silêncio de minha existência.


Aprendo o habito de separar instantes.

Concentro-me em reconhecer sinais de felicidade,

Eles escondem-se nas dobras invisíveis,

Por isso vivo o fervor de todas as coisas.


Escrevo para me comprometer comigo,

Para sentir a volúpia que de mim exala,

Para deslizar dentro de outras vidas

E seguir nessa busca pelo futuro vago.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Travessia

Tela de Paul Klee



Diamante humano
Segue desvairado em abismos.
Desconhecido mar sanguinolento
Busca passagem no contorno final da saída.
Redemoinho de dobras quentes
Expulsa nave rubra em dor atômica.

Pela intimidade dos sentidos.
Em contrações e gritos
Explodem faíscas radiantes,
Mostrando a claridade que habita.

Projétil que respira e pulsa,
Pedaço de vida infinita,
Navega no barco das almas,
Num desconhecido destino.

Instinto migratório buscando vida terrena,
Sopro divino em espiral eterno,
Fenda de luz mostrando vontades,
Ranhura difusa prepara passagem.

Túnel final de desembarque,
Sopro vivo, sussurros de ondas
Recebido em êxtase pleno
Nos braços da nave-mãe oceânica.



Rumo

Tela de Marla Olmstead



Encontrar um rumo,

Articular sua perplexidade

Frente à imagem confusa

Que se instala na retina

Dói.


Descobrir o caminho,

Ultrapassar as palavras

Que podem te dizer algo

Que determine tudo

Dói.


Fazer o coração falar,

Confessar assombros

Do mundo tangível,

Impregnar-se da febre do outro

Dói mais.