Fiquem de olho nela!
sábado, 1 de maio de 2010
Palco
Ando sob águas turbulentas,
Afundando na solidão com passos pesados.
Penhascos escuros surgem como recortes de papel
No teatro montado.
Estranhamento é o que sinto dentro da pele
Deste personagem que visto.
Dou franca entrada ao desconhecido
Que insondável, tateia a bilheteria de meu peito.
Tento o esquecimento, a inconsciência,
Para obter uma redenção.
Mas é na escolha da peça
Que recai a dor insuportável,
É na memória dos primeiros dias,
Onde a música era ouvida pelo coração
E não precisávamos das máscaras.
Puxo a cortina e descubro que ali,
Na primeira fila, ainda me esperam,
Com ansiedade e surpresa.
Posso ver no rosto do coração jovem
O brilho do “primeiro olhar”.
A Tecelã
Tela de Marcelo TanakaMinha juventude parte com dentes cerrados.
Riscaram meu nome do livro dos vivos.
Entrego-me às chamas rodopiando
Convulsa entre as labaredas do destino.
Língua de fogo acelerada, lambendo
As breves lembranças.
Sou devorada pela luz das chamas
Que se alastram apagando o que fui.
Sou derramada como água de um jarro.
Vou retorcida, esmigalhada pela foice negra.
Coberta num manto de morte,
Abraço meu inverno com pesar e incerteza.
Sigo na aridez da noite temporal,
Que marca o fim das horas.
Dentro do nada evoco o começo de meu tempo
De borboleta menina.
A tecelã do destino sopra em meu rosto,
Como um anjo, sua força de tecer sementes.
Arma-me de volúpia e vontade de querer ser.
Prepara os fios condutores do tear,
Fazendo-me deitar nesse espaço de novelo.
quarta-feira, 24 de março de 2010
O Revelado
Tela de David Edward Linn
Despertei com o frio,
O frio precursor do medo.
Dentes rangiam
Na agitação acelerada da febre.
A revelação se tornou latente,
Forças poderosas traziam imagens
Do profundo do meu ser.
Tomei no ar cada palavra
Sem me importar de onde vinham.
Era um encantamento vindo à luz
Por necessidade, não por escolha livre.
Um turbilhão de palavras
Ia sendo impresso em minha mente,
Num transbordamento de cores.
Revelações intimas
Caiam no papel mostrando um desejo,
Uma espécie de inspiração tensa.
As palavras se ofereciam em formas de imagens
Aguçando minha visão de poeta.
Elas tinham vontade própria
E escolheram a mim,
Para sua manifestação mediúnica.
E foi nessa espécie de transe
Que escrevi o poema revelado.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Semente
Tela de Jeremy Lipking(Ganhou o 89 concurso de poesia da PP.)
Como algo que dobra,
Não fosse esse desdobrar de galho solto.
Adivinho as flores rosadas
Soltas, trazendo um sinal orvalhado.
Minha mão cega, em sua pétala febril
Emoldura a dor num paspatur.
Louvo seu perfume de semente tenra
Tragando sua seiva almiscarada.
Cintura insensata que agoniza,
Concilia o impossível no tumulto dos dedos.
Quantos gemidos na palma da mão guardei,
No desdobrar do galho exausto.
Rachel D.Moraes
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
O Arco
Tela de David Edward Linn
Não era na cabeça
Que ficava o centro
De disparar o arco,
Era no sono.
Acordar não orientaria a flecha.
Insensato seria explicar
A tensão do arco
Vista do terraço de seu coração.
Falar dessa visão aniquilaria
O fantasma que se formava
Contra a luz
Atravessando os caminhos.
Virou delírio o pesadelo,
O alvo sem centro
Oscilava indiferente.
Avançou para frente
Sua carga de sorte,
Num corpo que se doou
A essa flecha da morte.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Tormentas
Tela de Gibran Kalil Gibran
Penetramos no mais fundo dos abismos,
Onde jaziam insepultos os jovens mortos.
Invocamos os deuses,
E cravamos nossas espadas
Na terra que sangrava.
Olhos vidrados pediam clemência.
Todos eles exalavam o horror da guerra.
Buscamos água para recordar seus feitos,
Enquanto os ungíamos.
Espíritos abandonados saiam dos corpos
E partiam para o centro do céu, jubilosos.
Vimos um cordão de almas se desenhando
No ar formando um cordão de luz.
Eram seus últimos dias radiantes
Na espessa camada de lágrimas.
Deixem que eu possa lavar todo este sangue
E imole um cordeiro na pira dos sacrifícios.
Deixem que eu possa contemplar
O Deus radiante e piedoso
Que orquestrou essa tormenta.
