domingo, 19 de setembro de 2010

Rio Nilo


Tela de David Edward Linn


Quanto tempo vai durar
O meu dia nessa noite escura?
Vou de volta ao palácio das brisas,
Com suave perfume de rosas,
Onde se encerram os suspiros.

A estrada das tamareiras é real
E eu caminho em busca do sol.
Meu destino segue embriagado,
E quem o conduz é cego
E desconhece essa paisagem invisível.

Dunas de areia vão se levantar
Formando montanhas entre as brumas
Do sonhado, mas eu acharei o seu caminho,
E seremos levados sem conta nem tempo.

Estou afundando neste sono
E nesta noite de espera,
Sendo para você
A mais delicada sombra
Que vai se arrastando
Para o centro do crepúsculo.

Encontro um rio mitológico
E bebo na fonte de um Nilo
Que reflete a aurora.
Ele coloca o sonho numa
Selvagem desordem.

O deserto me arrebata,
Rouba minha sombra
E meus dias de ilusão.
Solto minhas mãos
Que ficaram em espanto
Procurando você nessas águas.

Sou colocada numa noite de febre,
Num deserto de dunas que venta desejos.
Nossas almas virão para dentro do corpo,
Se soltarão absolutas,
Em busca dos gritos, antes que nossos
Abraços se arredondem na superfície desse rio.

Menina


 Tela de Nick Alm

Amanhã estarei de novo menina.
O que era claro se tornará enigma
E serei um obscuro espírito
De alguém refletida no espelho.

Ficarei parada no meio do espanto,
E o meu corpo cruzado de silêncio
Saberá que no meio do rumor do dia
Estarei de novo menina.

O coração buscará palavras
Atordoado pela mudança
Que o mistério até então escondeu.

E essa ilusão me fará rubra,
Acordando minha imagem de mulher,
Serei igual quando eu era outra
E o espelho rirá de mim.

sábado, 18 de setembro de 2010

Barco à Deriva


Tela de Nicholas de Stael

Todo esse caminho percorrido
Nos dias desse tempo de tormenta
Me preparava para a inconcebível
Chegada da noite.

Naveguei toda a costa do mar interior
E não pude encontrar satisfação em nada.

Nem um relâmpago revelado,
Algo que me sacudisse
Mostrando uma centelha de luz.
Um encanto que surgisse
E dissolvesse o horror do espanto
E apagasse esse presente.

Pedi que se estabelecesse,
Um poder transbordante e exato,
Que sacudisse e modificasse
A intenção deste barco à deriva.

Que o mar de lágrimas se tornasse
Um remanso de calmaria
E se pudesse chegar com coragem
Ao fim deste dia.

domingo, 5 de setembro de 2010

Sonho

Tela de David Edward Linn



Meu sonho circulava calmamente
Pelos corredores agitados da premonição.
Sua imagem quase imperceptível
Dançava numa névoa,
Como num oceano distante.

Espirais de fumaça deslizavam
Para um sonho etéreo, me colocando
Dentro de um casulo confortável.

A luz filtrada na pupila
Deixava transparecer sua imagem .
Impulso de miragem,
Frágil figura de névoa quente.

Consolo de sonho, alcance do voo
Prestes a acordar.

Fique em mim esta noite
E escreva o meu nome
Na superfície deste sonho
Que não quer acordar.

sábado, 21 de agosto de 2010

Canção dos Amantes

Aquarela de Galina

Há um silêncio grudado em mim.

Círculos se fecharam em meu corpo.

Contaria-te com minhas palavras,

Sobre esse desassossego em minha boca,

Se elas não estivessem afogadas.


Sei que meu ser sucumbe

Ante esse futuro iluminado

Que me apontam.


A Terra estremece quando digo

Que não mais andarei por ela.

Fogem de mim os que vieram buscar-me,

Porque leram meus pensamentos

E eu não me lamentei na sua língua.


À noite irão cantar a canção dos amantes,

Porque fui à causa de muitas aflições.

Minha natureza ensolarada

Cobiçou muitos amores, mas não pude estar,

Na solicitude de todos os desejos.

Destino

Ilustração de Nicoletta Ceccoli



Estava sendo conduzida
Por uma voz oculta.
Ainda vivia numa cela
Acolchoada de heras.

A relva brotava
Em baixo dos meus pés
E eu podia ver pela janela
O voo migrante dos pássaros.

Queria matar essa que está aqui
E sair com eles voando sem pausa.

O destino me cortaria em pedaços,
Mas eu iria sem ouvir meu inquietante
Inquilino, consciência.
Iria com os pássaros,
Pequena cicatriz rasgando o céu.

Daria uma visão surrealista
Ao pintor descuidado,
Que veria uma urdidura prismática
Em sua tela azul.

Vejo que deixei a casa vazia, morta.
Só volto depois que o destino me encontrar.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Tua Fonte

Tela de Roberto Rubalcava



Minha sede de ti é maior

Por não poder bebê-lo.

Invoco tua fonte para essa sede insana.

Renuncio minhas asas por um cálice

Dessa tua água impossível.


Vou com o vento atravessando raios.

Vou para dar-te minha boca,

Meu colo de represar água cristalina.


Meu corpo pede um escultor

Que saiba talhar um jarro

E você foi o escolhido.


Sou esculpida pelo vento

Que atravessa minha pele, enquanto

Lascas se soltam como folhas secas.


Cada dia uma insondável vontade

Penetra em meus poros

E eu penso ter em mim

Tua água e tua fonte.