sábado, 26 de setembro de 2009

Caverna do Homem


Tela de Odd Nerdrum



Oh homem das cavernas,
Desbravador de sonhos
Paleontológicos irracionais, ilógicos.
Coração de pedra, esculpido
Na ponta de sua lança
Que avança, cega,
Tenebrosamente dentro da noite
Entre minhas coxas,
Que tremem em delírios.

Minha carne primitiva se ativa,
Nesta Era sem eira, ressuscitada,
Sagrada e idolatrada.
Entre as profundezas
Do meu elo perdido.

Homem primitivo,
Afoito na moita dos pêlos pubianos.
Enrolado em sua vara escaldante, pulsante.
Gritos corridos dos meus ossos sagrados,
Espasmos da garganta seca.

Ruge um mamífero
Ao sinal visceral
Do esperma jorrando
Na caverna abissal
Do homem neandertal.

Cromossomos como somos
Carregados de fúria
E desejos inumanos
Arrastados do começo de tudo
Até o fim do que somos,
Eterno homem das cavernas,
Senhor arquétipo dos meus sonhos.


Este vai com um selo de garantia.

Agradeço o olho de quem deu.


quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Iluminada

Fotografia Lee Friedlander



Que gosto é esse que fica em minha boca

Quando sei de tua intimidade?

Que prazer é esse que me sacode inteira

Quando sou sugada por sua boca quente?


Vou em êxtase para o fundo de tua cama.

Abro minhas portas para recebê-lo

Entrego-me até desfibrilar meu coração.


É nesse céu de nuvens que me encontro,

Num remanso calmo que torna tempestade.

Chove em minhas coxas uma água salgada.

Roças seu dorso liso em meu ventre afoito

E sou consumida desmaiando em ti,

Toda iluminada.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Viagem

(Desconheço o autor)


Concha úmida de contornos ondulados,

Acolhe oceano em dobras de êxtase pleno,

Trás para si um mar de emoções.

Faz com que instantes de amor e entrega

Comecem a tramar destino.


A intimidade dos sentidos tece

Uma vida espessa no oceano.

Contrações explodem em ondas

Atormentando a vida que dorme.


Ela vaga invisível num barco oculto,

Num mar sem margens, numa orla de dor.


Instinto migratório que busca vida terrena.

Sopro divino, espiral eterno,

Fenda de luz mostrando-se ao barco.


Transporta vontades, move mãe oceânica

Prepara a passagem final ao porto.

Travessia de entrega, redonda, quente,

Quase palpável e sempre eterna!

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Lua Implacável

Tela de Jim Warren



Vem, Lua das minhas delícias!

Meu grito flutua na boca desse céu

Sem limites.

Meu coração bate apressado

Maquinado pela força dominadora

De meu gozo oceânico.


Essa sensação urgente de maré cheia,

Que vai se espalhando,

Pelos terminais de dois corpos

Caminha sob ondas tensas,

Para uma praia escaldante.


Flutuamos sob ondas de espumas.

Perdidos na tormenta das delícias.

Lençóis de algas embaraçam

Nossas vidas,

Numa dança tempestiva de carícias.


Sobrevivemos nessa ancoragem louca,

A essa Lua implacável de delicias,

Que fica escondida bem no fundo,

No horizonte perdido de uma concha.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Meu Medo

Tela de André Toma



O medo que tenho

É de nunca me apagar,

Medo do começo,

De nunca poder parar.


Medo da chegada hostil,

Da flor que evapora.

Do perfume que fica

E que não vai embora.


O medo que tenho

É da lembrança infinda,

É de estar para sempre

Como alma perdida.

terça-feira, 28 de julho de 2009

A Tecelã

Desenho de Toshi Yoshida


Minha juventude parte com dentes cerrados.

Riscam meu nome do livro das armas.
Entrego-me às chamas rodopiando convulsa.

Língua acelerada lambendo um medo atávico.

Vou retorcida, esmigalhada pela foice negra.
Instalada em manto de morte abraço meu inverno.

Sigo na aridez da noite, que marca o fim das horas,

Evoco o começo de meu tempo de borboleta menina

E sou devorada pela luz das chamas.


A tecelã do destino sopra em meus ouvidos

Sua fúria invernal.

Deito nesse espaço preparado

E renasço numa nova vida,

Sem nunca ter entregado meu coração.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Vinho

(Desconheço o Autor)



Fui para você, não uma taça,

Mas um rio inteiro

Transbordando de amor.


Quantas vezes fugi para os seus braços,

No meio da noite e bebi desse vinho doce.


Fundíamos um ao outro,

Até eu me sentir dilacerada pelo prazer

Arrancado de meu ventre.

Até estar quase morta, mas saciada.


Quantas vezes mais exalaríamos

Esse perfume de terra fresca,

Como um campo de trigo ceifado?


Ainda sou tentada para estar contigo,

Nessa combinação de amantes,

De vinho e licor próprio.


O mesmo prazer filtrado entre as coxas

Bebido hoje em minuciosa taça

Esculpida com nosso romance.