segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Fôlego


Tela de William Shih-Chieh Hung


O fôlego me faltava.
Era uma insanidade de loucura
Que se estabeleceu naquele momento.
Uma entrega impaciente, eriçada
Que reproduzia toda a lascívia
Que borbulhava entre seus dedos.

Não conseguia mais harmonizar
Aqueles momentos furtivos.
Uma alucinação penetrava
Através dos poros,
Para se transformar numa textura
Física e irremediável.

Tornei-me luminosa.
O sol atravessava o meu corpo
E um deleite se instalava
Nos terminais de meu ser.

Que fascínio mortal era esse
Que transportava estrelas douradas
Para o meu centro desnorteado?

Assinei um termo de ansiedade absoluta,
Quando fui invadida por sua chama fustigante.

Morria e ressuscitava
A cada contração invadida.
Explodia por entre a mordaça de seus braços.

Eu era uma fruta suculenta
Que se esvaia em sumo
Pela ferocidade de sua língua
Que ondulava êxtase.

Penetrara num lugar clandestino,
Numa reentrância úmida e urgente.
Dentro de uma existência
Incandescente de sol
Que pulsava sob uma rosa alucinada.


sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Terra

 Tela de David Edward Linn


Eu permaneço no ar gelado e telúrico
Desse Universo denso e infinito.
Pairo no hálito de Deus
Que me olha como uma raridade complexa.

Sou a preciosidade mais bem elaborada
De sua sala de criação.
Tenho a mais sutil perseverança de seu sonho,
O que Ele tinha de mais profundo
Em seu pensamento.

Sou a estrela nova,
Aquela que guardará a porta que emerge
O oásis solar, o decantado suspiro divino,
O reflexo da Criação sublime.

Sou o centro de tudo que se encontra
Sob o olho atravessador de moléculas
Dessa divindade.
Sei que estou coberta pelo radiante
Amor cristalizado desse ser celestial.

Apenas me inquieto quando
Ele me diz sua revelação cósmica mais secreta.
Como num sonho de atmosfera radiante,
Ele me sopra gases hipnóticos
E diz com aquele olhar de pai amoroso:
Eu te fiz única.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Pentagrama




Ouça o meu grito que cai sob a folha.
Pentagrama que contém
A nota do meu amor.

Ouça minha voz ensolarada
Que te chama num bemol de luz.
Clave de sol cravada em mim,
Canta o invisível de ti nesta morada
De sons e linhas sobrepostas.

Alastra-te em minha pauta branca,
De pele sonora e ondulante,
Que descompassa nessas colcheias febris.

Notas dissonantes dessem das linhas
E caem sob nossos corpos deslumbrados,
Engendrados num fôlego impetuoso
Pela canção desse amor
Que escalda o cerne de nós.

sábado, 25 de setembro de 2010

Cosmo

Tela de Bob Eggleton


O voo é breve como a pluma leve.
O espaço do céu é exato e se mede
Como contas de um colar
Num desenho cósmico. 
Flutuam como planetas
Rumo aos jardins de Deus.

Frágil alaúde de cordas de poeira
Toca o som da passagem revoada
Dos pássaros de fogo.
Segue o mais forte rumo ao sol,
Incandescente como o riso de crianças.

Carícia de canção de quem se atreveu
E fez valer a pena cada som tangido nas cordas.
Busca o alvo no céu, e a nuvem que calma.
Encontra o mar dentro dos olhos
E a chuva no coração.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A Voz


 
Tela de James Louis Steg

O invisível se manifestava
Na clave de sol, quase irreal.
Pianíssimo fulgurante,
Quase orgânico de matéria sonora.

Fazia da música o seu rito de passagem
Colocando-se inteiramente
Ao ritmo do coração.

Chegou perto da certeza do canto,
Para perder-se novamente
Dentro da suavidade da canção.
Ela, despretensiosamente...
Abafava sua voz.

Durante o dia tocava a melodia esquecida,
Sabendo que daquelas teclas
Sairiam labaredas de fogo
E as portas se abririam
Através das chamas que saltavam.

Quando a noite chegava
Com seu opulento silêncio
Acordava com o som
De suas cordas vocais.

O Encontro


 Tela de Vasnetson Victor Mikhailovich


Buscávamo-nos os dois,
Por muitos séculos.
Cada barco que apontava no cais
Era uma esperança.

Cada sombra que surgia era perscrutada
E vasculhávamos cada alma nova
Que ansiava pela luz do mundo.

Do negro crepúsculo ao clarão da aurora
Buscávamos um ao outro
Desmanchando a teia
Que emaranhava nossa visão,

Cada dia era repleto de ansiedade,
Cada hora era temida,
Porque sempre terminávamos sozinhos.
Nascíamos e morríamos sem nos encontrar.

Até o dia em que olhando no espelho,
Vi sua imagem atravessá-lo
E docemente me abraçar dizendo ser este
O último dia de nossa espera.

Um Lugar no Paraíso


Tela de Carl Frederik Peder Aagaard


Um dia acordei sentindo
Saudades de um lugar.
Comecei a medir o tempo,
A contar as horas
E desenhar mapas.

Uma luz inconcebível
Brotava dos meus olhos.
Uma imagem se formava
Acenando-me do meio
Do pó dos sonhos.

Comecei a decifras sinais.
Estava certa que eles eram um aviso
Sobre eu ter vislumbrado o Paraíso.

Dei para celebrar encontros.
Estabeleci em mim
Uma urgência de viagem
E preparei o dia desse destino.

Os jardins rodeavam o templo
Trazendo o frescor da manhã.
Justifiquei cada flor apanhada,
Para entregar-lhe, junto com
Minha falsa serenidade.

Prometi a mim mesma
Entrar nesse lugar despida de pudores,
Mas meu rosto estava rubro
E meu corpo tremia.

Nascia dentro de mim
Uma musica de promessas.
Desatei-me do que me confundia
E me pus nua.

No pátio de sua casa
Andei em círculos e fui desvendando
Cada eco de seu chamado distante.

Teci para mim uma túnica de orvalho
Para deitar em sua rede.
E senti gritar em minha pele
O último dia de espera.