domingo, 9 de janeiro de 2011

Saudades



 Fotografia de Derly Barroso

Tenho uma saudade tão imensa,
Que chego a deslizar pelo silêncio
Que mora nas paredes de meu quarto.

Sua falta é de uma dor tamanha
Que sinto o peso da tristeza
Desdobrando-se sob minha alma.

Todas as cores se transformam em sangue,
Matizando o anoitecer de minha ilusão,
Num imenso céu inacessível.

Vejo suas promessas tomarem forma
Quando esvazio as ânforas
Ansiando descobrir o oculto de seu ser
E só encontro a solidão delas.

Estou dentro de um pesadelo
Levada por caravelas negras
E não sei o fim do meu destino.

Tenho o coração atormentado
Por um crepúsculo desconhecido,
Um frio que me tomba
No bosque de uma paixão lendária.

Conheço a boca que canta
Essa melodia entrelaçada de tormento,
Pois a mesma voz já me fez
Promessas de paraíso.

Chego a me transformar em você
Para amenizar essa dor agonizante.
Canto sua canção, até minha dor adormecer,
Fingindo te reconhecer em mim.

(Ganhador do Concurso de poetas da Proibido Proibir)

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Um Poente

 (desconheço o autor)


Queria te ter como uma sombra
Que passa sem deixar vestígios.
Que fosse só silêncio extremado,
Que não ondulasse sua ternura
Sem medida e sua voz de doçura.

Que deixasse o pó em paz
E as folhas soltas,
Ancoradas em meus dedos.

Que fosse apenas como
Um salgueiro quieto, sem ventar.
Estivesse apenas para existir
E resplandecesse para eu te olhar.

Que fosse música quando
Eu me despedaçasse no chão
Como vaso de cristal
E fosse silêncio enquanto
Eu derramasse palavras no papel.

Que não cantasse a minha volta
O seu bem querer agonizante,
E me mostrasse sua corda tensa
E corrompida pelos meus invernos.

Que atravessasse calmamente
Esse mar sem farol,
Enquanto minha noite
Delineasse um poente para nós.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Sepultura Invisível

 Tela de Marc Chagal


Conheci um longo dia de tristeza.
Ouvi duras palavras saírem de tua boca.
Fiquei amarrada sob um clima descoberto,
Abandonada as tempestades de sua voz.

Fui devorada pelas águas dos meus olhos
Numa longa noite sem lua.
Presa num deserto sem oásis,
Dormindo na garganta da serpente.

Sigo sozinha atrás das sombras
Que o sol deixa nas paredes.
Não conheço mais ninguém
Que se recorde de mim
Quando ainda tinha asas e voava.

Ajudei-te a construir Nínive
Com meu riso e suspirar,
Mas você veio com suas falsas profecias
E ela já não existe mais.

Enquanto eu mantinha
O infinito preso no horizonte.
Para que teu palácio
Perdurasse no mundo,
Você fazia sangue em meu corpo.

Esquecestes que fui sua música
E que sonhávamos o som das esferas.
Acreditei no que saia
Do movimento de tua boca,
Mas você me fez repousar
Numa sepultura invisível.

Agora estou me tornando silêncio
E volto a dormir no fio da vida
Para me tecer novamente.

Ao olharem para nós,
Ninguém saberá ao certo
Quem é quem,
Depois de te desenrolarem de mim.

À Noite dos meus Dias


 Fotografia de Derly Barroso - modelo Rachel D.Moraes


Somente me harmonizo
No movimento cósmico
De tuas mensagens.

Na expressão palpitante
Fincada nas palavras
Dos poetas, levito.

Todos os dias você
Flui em mim
Desfilando versos
Que dançam na obscuridade
De minha alma.

Tento alcançar a ascética
Fraternidade dos
Rarefeitos fonemas.

Busco a origem
Dos dialetos esotéricos,
Entre esses retalhos
Escritos que me manda.

Cada palavra é música
Que abre o meu silêncio.
É um instante de ternura
Para que eu possa atravessar
À noite dos meus dias
Nesse universo taciturno.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Presságios

Tela de Iman Maleki



Apoiei-me em momentos de ternura,
Embriaguei-me horas inteiras de luz.
Caminhei ao lado de sua nostalgia,
Até sentir presságios.

Uma fogueira voraz ardeu
Em meus olhos.
Língua se fez, e palavras foram
Ao fundo de mim.

Eu era casual como a chuva,
Era a urgência de te fazer nascer o sol,
Era a pressa de ser feliz por um dia.

Ninguém mais sabia,
Mas eu era a que te pertencia.
A que escutava teus dialetos sombrios,
Afastando de ti
Os redemoinhos que nasciam.

Dois Perdidos


 Tela de Van Gogh


Talvez tivesse sido num sonho,
Eu ser brasa em sua boca.
Agora não conseguia mais
Existir em suas palavras.

Fui abreviada dos sorrisos,
Quem sabe, apenas uma cicatriz
Tenha ficado no céu da boca.

Pela falta de nós dois
Bebeu-se todo o clarão
Que restava da noite.
Os espelhos foram encobertos
E os panos foram sacudidos
Para deixar cair a escuridão.

Os fantasmas triunfaram,
Apesar de meu espanto.
Dentro dessa hora morta,
Espero a navalha de um homem cego,
Que cortará minha garganta.

Um homem lapidado por angustias,
Com a boca cheia de abismos,
Perdido dentro da vida.
Talvez tão perdido quando eu
Dentro da noite.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Rocha Lavrada


 Fotografia de Roberto Rubalcava


Você me trás nuvens de felicidade
Em horas incertas.
A minha volta elas se tornam elétricas,
Como se acabassem de chover delírios.

Sua ternura ausente me consome,
Seca minha garganta
Abrindo em meus olhos
Uma corredeira deslizante
De rocha lavrada em esperas.

Uma palavra rubra
Me estilhaça vértebras,
Giro em vertigens
Para cair despida de você.

Todas as fronteiras
Golpeiam esse amor faminto,
Retendo um acúmulo de vozes
Em minha cabeça.

Aos poucos vou me entrelaçando
Em um vento que me trás monossílabos,
Deixando-me enganar
Pelo vazio da prosa inteira.