terça-feira, 12 de junho de 2007

Revelação da Coisas

Tela de Pierre Auguste Cot



Quando fui visitada
Pela senhora das palavras
Estava desprevenida e visível.

Fui aos poucos sendo cristalizada
Pela sua métrica condutora.
Aos poucos estava condenada
A um dom que se imprimiu
Em mim como ferro em brasa.

Passei a respirar palavras e
Comecei a organizá-las
Numa semântica impecável
Que desbloqueava as possibilidades.

Então me soltei,
Incorporei-me na obscuridade do mundo.

Procurei caminhos desconexos,
Que com o tempo
Foram se multiplicando
Enchendo-me de vontade,
Para interpretar
As entrelinhas do texto de minha vida,
Dando-me coragem
De me tornar o que sou.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

O Relógio

Tela de Magritte

Ele era de marca,
Daqueles que cristalizavam
Os olhos de quem o via.
Batia um tic-tac
Alertando-me da preciosidade
Dos segundos.

Foi fazendo parte de mim
Envolvendo-me naquele
Seu ritmo constante.

Trazia para dentro
De meu corpo
Uma nova ordem,
Um encontro de mecanismo
Que substituía uma permeabilidade
Transferindo-me num jogo revelador.

Era o mestre dos ponteiros
Que confirmavam
O andamento de uma obsessão
Desesperada do tempo.

E um dia, sem ao menos
Ter percebido,
Ele tornou-se uma certeza:
Era eu quem fazia parte dele.

Elfo


Ilustração de Alan Lee


Quero voltar tão logo viva
Tudo o que vim fazer.

 
Como um elfo rodeado
De silêncio,
Ouço o sussurro das árvores
E sinto as carícias do orvalho.

 
Sou verde como a orla da floresta.
Marco com passos largos,
Meu caminho de volta.

 
Vou viver no meu céu,
Contar minhas estrelas
E minhas folhas ao vento!

Encontro

Ilustração (desconheço o autor)

Preguiçosamente,
Languidamente,
Deixo-me ficar
Nessa atmosfera
Morna e almiscarada.

O real me foge
E o surrealismo surge
Entre o piscar de meu olho mágico.

O sangue corre quente,
Tingindo de cores brilhantes
O horizonte.
Não me iludo com promessas,
Meu encantamento reside
No mistério das coisas simples.

Vivencio esse corpo nu,
Folheando-o como a um livro
E desvendo esse mistério perene.

Descubro a verdade
De minha alma.
Ela vive no imaginário
E se encanta em descobrir
As estruturas reais.

Vislumbro a possibilidade da harmonia
Que se traduz no encontro.
O encontro é a revelação
Do mistério que se faz divino.

Os diferentes se encontram
E fundem-se sem medo.
O velho torna-se novo
E eu dissolvo-me em seu corpo.


Em Torno

Fotografia de George Ghio

Escrevo seu poema
E de repente
Estou escorrendo do papel.
Acabo de morrer.
Fico pairando no ar
Querendo precipitar-me
Para dentro de mim mesma.

Aquelas raízes
Que me prendiam ao chão,
Soltaram-se.
Meu coração se foi,
Prendi-me neste licor de limbo
E aqui estou.

O som é-me inexistente,
Mas sinto o gosto do barulho.
Morri numa letra atroz de seu poema
E acordei fora de mim.
Agora pairo no ar ofegante por ele.
Concentro-me na linha escura
Da letra rompida.

As palavras do poema embaralham-se
Tentando dizer-me algo.
Espanto-me com esse redemoinho de letras.
Vou entrando pelas dobras das coisas,
Escôo-me inteira dentro do papel.
Nada mais me importa.
Escorrego-me entre as linhas paralelas
E oxido-me vermelho sangue.



Noite

Pintura de Marc Chagall

Que entre a noite
Com voz de soprano e
Acalante-me
Com o seu suspirar.

Vem noite escura
De ultrapassar
Umbrais
Que o dia é perto
Do meu despertar.

Deite em meu horto
De sombra e espera,
Faz-me existir
Em sua canção.

Que entre a noite,
Inteira e escura
Que resistirei à lua
Com seu esplendor.

Dançarei nua e
Serei livre,
Dos pudores todos,
Que o dia deixou.

E serei achada
No girar do tempo,
O dia e a noite,
Do meu despertar.

sábado, 9 de junho de 2007

Faraó Akhenaton


E olhando para o alto
Pude contemplar
O mundo superior.
Lá...
Onde se esconde
O Ser Eterno e
Único
Pude ver o meu reflexo.
Eu sou a imagem
Daquele que me criou.
Eu sou aquele
Que conduz
Para a luz
Aqueles que se escondem.
Vejo
través do umbral,
A luz maior
Que flama na eternidade.
É lá que farei
Minha morada,
E beberei do cântaro sagrado,
A água da vida eterna.