sábado, 29 de setembro de 2007

Sozinho (seg.versão)

Tela de Juan Storm

O princípio da incerteza
Aflora agora.
Acordo na superfície,
O mundo é um olho obscuro.
Avalio o escondido
Perdido
Dentro de mim.
Estou só.
Sigo na densidade
Pairando
Nesta angustia de ser.
Nasci só.
A condição humana
Atravessou minha alma.
Agora sigo
A medir caminhos,
Sozinho a fugir de mim.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Gume

Tela de Jacob Collins

O que me fere
É uma espada entalada
Em minha costela de Adão.

O que te fere
É ver que essa espada
É um espartilho
Que não tem gatilho.

Lateja lâmina
Lambendo a carne
Que sangra
Grinaldas de sangue
Que angra.


Toque retoque
O reboque
Para salvar
A espada amolada
Gume de lume
Mina salina
A me incomodar.

Atrás da porta
Aponta a ponta
Da sorte consorte
Olho agonizante
A dor flui entre nós.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Sozinho

Ilustração de Anthony J. Ryder

O princípio da incerteza aflora
Quando acordo na superfície do mundo e
Olho a obscuridade dos seres em sua solidão.

Avalio o que não se quer mostrar.
Escondido dentro de si o homem está só.
Segue na densidade das coisas
E não consegue atuar na generosidade.

Estou aqui pairando sobre tudo
A refletir nessa angustia de ser.

O homem nasceu para ser sozinho.
A condição humana atravessa sua alma
Fazendo um ser triste e só
A medir caminhos e fugir de si.


domingo, 16 de setembro de 2007

O Meu Rio

Ilustração de Allan Lee

Um rio caudaloso e manso
Passa por minha vila,
Às vezes transborda
Quando há tempestades,
Às vezes seca
Quando é forte o verão.
O mais importante para mim
É que esse rio
Leva-me para o mar
E de lá,
Posso ir onde você está.

sábado, 1 de setembro de 2007

Medusa

Tela de Arnold Böcklin

Um rosto de máscara
Cintilante e hipnótica,
Entrelaçava o olhar do oculto,
Buscando um corpo de sombra.

Cingiam sua cintura,
Serpentes.
Longos cabelos ondulantes
Que por carinho,
Cravam-lhe os dentes.

Pequenas serpentes azuladas,
Dançavam absoluto mistério.
E ela, Medusa dos medos,
Em silêncio formava um império.

O olhar paralisante,
Buscava o coração aflito,
Rondava de perseguir caminhos,
Jorrava emoções em ondas,
Para o mortal encontro em um ninho.


sexta-feira, 24 de agosto de 2007

O Grito

Tela de Odd Nerdrum

E caiu sobre mim
Um silêncio de seta.
Mergulhou-me atingindo
O alvo certo.
Implacável absorveu-me inteira
E eu fechei minha boca quieta.

Em cada fenda decifrei soluços
E minha voz
Falou para mim mesma.

Precipitou-se na pele
Rumo a minha boca.
Absoluta de tudo,
Trabalhou devagar um caminho.
Desfiz de mim uma voz meio rouca,
Fui obrigada a ceder seu carinho.

Enfim essa intimidade
Desfez o enigma do silêncio.
E uma fundição muito louca
Começou a trabalhar
Minha boca.

Gritei até me asfixiar
E ordenei que saísse esse ar.
Começou um desejo crescer,
Num fluxo imenso girando.
Não encontrei outro modo,
Senão gritar bem alto o seu nome,
Que delirando ouviu meu comando.

Relatividade

Tela de Jacob Collins

Naquele quarto de espaço
Havia uma contração de desejos,
Uma dilatação temporal,
Permitindo um aumento de massa
À medida que esta
Atingia a velocidade do querer.

Ali começava surgir
O limite maximo
De nosso universo,
Onde ajustávamos
As palavras aos gestos.

O tempo passa mais devagar
Para quem está se movendo
E íamos a velocidade da luz.
Naquele encontro de partículas,
Tínhamos o magnetismo
Das forças opostas que se atraem.

Quietos e sem fôlego,
Esperávamos sozinhos,
Em silêncio.
Arrebatados nos contorcíamos
Perante a energia
Que entornava saliva,
Ancorava cadências,
Querendo sempre mais e mais
Do mundo côncavo e convexo.

Um mundo que descortinava
A pele que sempre nos cobria.
Que nos sacudia num ritual perpétuo
E nos consumia numa eternidade de desejos.