quinta-feira, 7 de junho de 2007

Cristóvão Colombo

 

  Tela de Jake Baddeley

Sou um fazedor de sonhos,
Um arquiteto de esperanças.
Sou um construtor de vontades,
Um fabricante de coisas invisíveis.
Sou um mágico que se prendeu
Em uma caixa de ilusões
E espera que uma fada venha soltá-lo. 
Minhas noites são de longas vigílias,
Estou preste a fazer a utopia real.
Singro por esse mar tenebroso
Buscando uma ilha imaginária.
Temo perder-me em meu próprio rastro
E deixar de ser o herói mitológico
Das façanhas impossíveis.
Tenho o espírito convulsionado
Pela mesquinhez de minha época.
Avanço no tempo com o mesmo passo
Que avanço no espaço.
Torno-me testemunha do conhecimento,
Abro os olhos e vejo o mal.
Agora sei que tenho escolhas
E assim prefiro ver o que é real.
Minha escolha
Foi buscar o Novo Mundo,
Cheio de grandezas e esperanças,
Mas o que descobri realmente,
Foi que, o poder corrói e nunca dorme.
Por isso eu vigio!

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Valer a Pena

Pintura de Alphonse Musa

Eu vi que logo abaixo,
Onde o cotidiano existe,
Ali na superfície de tudo,
Há um mundo real
Que eu não conheço.
E alguém me disse
Que a vida vale a pena!
Estou sendo persuadida
Por um olhar avaliador,
Que me coloca
Na ótica do cotidiano
E eu não me encaixo nele.
Analiso a minha existência,
E é como caminhar no escuro
De mãos dadas com o inimigo,
Que confirma minha solidão
No universo.
Atrevo-me a tocar
Esse manto espesso,
Que encobre a realidade,
E tenho uma intuição
De que as coisas,
Não se suportam.
Elas estão flutuando
Num espaço cósmico,
Esperando para serem escolhidas.
E eu escolho a possibilidade
De portar uma mensagem:
Quero transpor o espaço
Estando lá e aqui,
Sendo uma única entidade.
Quero conectar-me com o todo,
Estando em tudo sempre.
Quero girar sobre mim mesma
E me sentir parada
Na imensidão de minha existência.
Ter o direito de ser
A peça principal de minha realidade.
E numa névoa de força invisível
Permear o cosmo de minha vida
Fazendo-o valer a pena.

Explorador de Galáxias

Pintura de Josephine Wall

Sou dono do observatório,
Vago à noite por planetas,
Estrelas e galáxias.
Meu coração tem sua morada na noite.
O mistério do lado escuro da Lua eu vi.
Sua face visível não conta
Os mistérios do Mare Orientale,
Cratera de mel nas regiões sombrias.
Meu coração se orienta
E capta visões fragmentadas
Num mar de delícias.
Sou um amador e sigo sozinho,
Procurando jovens estrelas
Que se mostrem para mim.
Objetos passageiros na
Atmosfera de meus sonhos,
Detectam a massa invisível
Dos meus sentimentos.
A dinâmica do Universo
Expande-se em meu corpo.
Sonho que Deus se mostra criando mundos,
Cada um com sua calda de gazes e poeira,
Brilhando a luz do Sol distante.
Meu coração viaja nas profundezas do céu.
E lá está! Corpos perfeitos e tranqüilos
Mostrando-se aos meus olhos.
Eu sigo colecionando pequenos cometas
E belos asteróides.
Eu sei que Deus os cria para
Que eu possa admirá-los.
Sou o cavaleiro da noite,
Vasculhando os cumes e as
Profundezas da alma humana,
Sempre viajando pelas visões de Deus.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Encontro

Ilustração de Tarlei Melo

Preguiçosamente,
Languidamente,
Deixo-me ficar
Nessa atmosfera
Morna e almiscarada.

O real me foge
E o surrealismo surge
Entre o piscar de meu olho mágico.

O sangue corre quente,
Tingindo de cores brilhantes
O horizonte.
Não me iludo com promessas,
Meu encantamento reside
No mistério das coisas simples.

Vivencio esse corpo nu,
Folheando-o como a um livro
E desvendo esse mistério perene.

Descubro a verdade
De minha alma.
Ela vive no imaginário
E se encanta em descobrir
As estruturas reais.

Vislumbro a possibilidade da harmonia
Que se traduz no encontro.
O encontro é a revelação
Do mistério que se faz divino.

Os diferentes se encontram
E fundem-se sem medo.
O velho torna-se novo e
Eu dissolvo-me em seu corpo.


Reluz

Fotografia de Diane Arbus


Quem empunha esse punhal
Que me tira a vida?
Quem me sacode
A beira desse abismo denso,
Lançando-me ao rio da morte?
Ondas imensas cobrem-me
Com poderoso alcance,
Mas sou resgatada aos pedaços
E colada
Num fio de luz
Que reluz.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Desejo


Pintura de Adolphe William Bouguereau

Vem e sacia-me
Desta fome estranha,
Que cresce e possui-me.
Vem alimentar-me
Daquilo que excede,
Que é bem maior
E que me impele a ti.

Já não me basta
Esse alimento que
Quer-se sempre mais!
Meu desejo é chama
Que arde eternamente,
Que vem de não sei onde,
Que não tem fim e nem começo,
Que está aquém de mim.
Disseco-me,
Arrebato-me em ti,
Que fomenta o meu desejo.
Atenda-me agora
Tirano enigmático,
Interpreta-me com seus dedos,
Com suas interrogações,
Que incendiarei para ti.

domingo, 3 de junho de 2007

Bolero de Ravel


Pintura de Hamid Rahmati

Estou presa...
Perpetuo o meu desejo de te ter,
Enlouqueci nesta vontade febril.
Vou derrubando os muros,
Espio pelas brechas...
Só vejo você.
Seus olhos perseguem-me,
Vou vê-los no hangar do avião,
Na cabine de comando,
No saguão das esperas ansiosas.
Estou vivendo em tempo de espasmo.
Vou dissolver a qualquer momento
E prolongar-me até você.
A vida é tênue, tênue...

O grito mais alto
Ainda será um suspiro distante,
Diante dos beijos que vou te dar.
Sou louca...
Vou levando o reflexo de teu olhar

Extraído de meu computador.
Nada mais tem importância
Se é para você que volto.
Debruçarei-me em teus joelhos
E nessa ilha de êxtase,
Conhecerei um sol que não é dos trópicos.

Em cada volta que dou em mim mesma,
Você está mais perto.

Serei visitada pelo fogo celeste,
Quando você se tornar real.
Em mim, não haverá lugar para o
medo,
Porque serás todo certeza.
Estarei sempre sonhando,
Dançando um bolero de Ravel.