sábado, 19 de abril de 2008

Espartilho

Tela de Ego Schiele


Inclino, declino
Na onda obliqua
Do seu balançar.

Espartilho na dobra,
Arqueia e desdobra,
Aperta o meu despertar.

Dedos de talhe,
Inquietos no entalhe,
Quer se vingar.

Dorso de ninho,
Desce em torvelinho,
Louvando um cantar.

Orvalho de sonho,
Desprende os laços
Que em volta, dá voltas.
Solta meu respirar.

Minh´Alma

Rachel Moraes by Bob Dimensten



Noite silenciosa de minha vida.
O ar que me têm,
Tomado de sono adormeceu.


Vago embalada pelo som do adeus.
Deixo-te como sombra minha,
Alma pássaro,
Clara, recortada de meu corpo.


Ser alado,
Réstia do melhor de mim,
Escuta que ainda sou eu aqui.


Dou-me conta que sou sombra
À partir de mim.

Vulcão

Tela de Dino Valls


Deixe-me falar do perigo
Que ronda minha pele,
Que arde e queima
Aos seus dedos de chama.

Desperto sob um vulcão enfurecido
E desço minha existência
No âmago de seu corpo.

Enrosco-me em fagulhas que saltam,
Penetrando em meus poros.

Estou cega,
Meus joelhos dobram-se à sua vontade.
Sou desfeita em gotas que se espalham
Com o calor de seu hálito.

Dou voltas e voltas
E de novo, queimo-me
Em suas mãos.

sábado, 5 de abril de 2008

Ilusão

Tela de Dan Thompson


Arte e sensualidade, juntas,
Caminham sob minha pele.
Estão ali, sob a alegria de ser.

Sou uma idéia, um desejo
Que crava dentes na vida.
Que sedenta,
Invade o espírito do mundo.

Vibro com a idéia de escorrer-me
No ritmo do êxtase das coisas
E sou música quando estou nelas.

Pontuo meus passos para o encontro,
Estou lá, sempre,
Na curva da alma.

Lanço-me às tintas coloridas
E escorro, quente e úmida
Em sua tela que respira e pede:
-Vem ilusão e se fixa em mim!

segunda-feira, 24 de março de 2008

Luz

Desenho de John William Waterhouse


Minha sombra vai calada
Pelas águas desse rio.
Meu reflexo é a dor
Que vai em meu peito frio.

As flores que ficam as margens,
Olham quietas para mim.
Meus olhos estão perdidos
Dentro das águas sem fim.

Estou imóvel como num sonho,
Parada, esperando a dissolução do medo.
E você vai surgir, perene,
Através de uma luz clara e líquida.
Ondas envolventes me atravessarão
Dissipando minha dor.

domingo, 16 de março de 2008

A Estátua que Chora

Tela (desconheço o autor)


Que a terra me seja leve,
Pois me retiro desta vida
Sentindo um gosto de travo na boca
E o peso pungente da vida densa que se foi.
Toquem árias em flautas de caniço
Para que eu descanse e possa retornar-me planta.
Molhem a terra, que a relva já começa a nascer em mim.
Fiquem e contemplem essa paz única
Que sai de meu corpo inerte.
Não tenho mais arrebatamentos
Que não seja o de te ter em contemplação.
Estou aqui, sem aquela consoante batida do coração.
Os instantes de pesar se foram com o último suspiro.
Aquela que almejava o concreto das coisas,
Aqui descansa em plenitude.
Estou quieta, em estado perene, quase gás etéreo.
O que era se foi,
Deixando-me ser, somente, partícula de poeira.
Nada deixei que valesse um espanto qualquer.
Aos poucos não restou mais nada do que fui.
Agora, o que me consola neste vazio de ar
É essa figura de pedra a me velar.
Percebo o seu silêncio calcário,
Suas asas de penas talhadas.
Sinto por ela mais pena
Do que a pena dela por mim.
Em seu olhar consolador há tristeza e pesar.
Quem sabe, essa lágrima que penso ver,
Seja a mesma que tenho em mim,
Por uma tristeza de ser e não existir.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Langor

Tela de Egon Schiele


Como foi que não me viu.
Não estava eu aqui!
Volte, metáfora de minha ventura.
Que meus dias se perdem sem ti.

Um arauto chegou bradando voz.
“Alguém desliza em carne viva”.
Volto aos lençóis onde há loucura.
Realizo o ritual em opressivo silêncio.

Langor...
Pele abrasada e trêmula,
Queima no vértice de minhas coxas.
Acolho os suspiros abafados,
Que tateiam um gingado desconexo.

Ecos noturnos gemem nas carícias.
Resvalam num imponderável grito.
É minha balada libertina,
Buscando-te num mapa horizontal.