domingo, 21 de setembro de 2008

Outono

Tela de Pierre Bonnard



Quando a chuva de outono

Respingar em minha janela

Estarei te esperando.


A música soará intensamente

Das cordas de meu coração.

O vento há de dançar

Por nossa alegria.


Tochas serão acesas

Iluminando nosso jardim.

Flores exalarão perfumes,

Muito além, do que se pode sentir.


Seremos arrebatados pela relva fresca,

E ali mesmo, incrustados na terra

Exalando o que de mais antigo,

Tem os corpos.


Na confusão das emoções

Invadiremos um ao outro

Com nervos retesados.


Uma sinfonia tocará.

Galhos retorcidos se aquietarão

No cimo de meu corpo.

Glóbulos mornos de orvalho

Escorrerão no solo

Encharcando nossos pés entrelaçados.


Teremos o aroma doce das flores

E o inominável cheiro do amor.


Estaremos inertes

Na lassidão do esquecimento

Abandonados ao suspirar

Do fim da noite.


Ali, no segundo estreito

De meu olhar no seu,

Nada será como era,

Tudo será mais.

Vaso


Desconheço o autor



Vim pura e livre.

A essência foi conquistada

No clamor de minha liberdade.

Minhas escolhas foram propostas

Pela força de meu coração.


Fui arredondada em argila quente.

Dei voltas inteiras

No torno do oleiro mestre.


Decodifiquei meu corpo

Em partículas de areia e água,

Quando saí

Do propósito da criação divina.


Agora sou vaso

E só preenchida sinto o meu valor.

O Demolidor

Tela de Dino Valls



No silêncio de tudo,

Ele compunha versos alados.

Arquitetava palavras

Batendo um compasso

Dissonante e continuo

No emaranhado das letras.


Acariciava as silabas

Para formar seus poemas.


Ao toque da pena

Saltavam

De sua primordial forma,

Na folha quase branca.


Seguia numa lógica enlouquecida

Pelas promessas desconstrutivas.

Assim, num emaranhado de versos,

Ele se perdia para se achar.


Quando tudo estava pronto

E a folha preenchida,

Ele, como um demolidor,

Desconstruia todas as palavras,

Para juntá-las,

Num novo poema de amor.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Por quê

Tela de Amadeo Modigliani



Onde foi que me perdi de ti?

Em que canto enternecido da vida

Meu olhar se anuviou

E me perdi de ti.


O fio de Ariadne não foi o bastante

Para que eu te encontrasse

Neste labirinto perdido dentro de mim.


Tenho acumulado um tesouro por anos.

Ocultei nas estepes de meu corpo

Essa vontade nostálgica

De te ter dentro de mim.


Sonho com seu jardim de terra fresca,

Com tardes cálidas,

Nesse paraíso de promessas perdidas.


Te vejo interrogar meu corpo,

Rompendo peles,

Fazendo voltas no meu existir.


Depois, em halo sereno,

Parte como um servo

Que executa ordens.

Esquece-me em campo aberto

A perguntar: por quê?

domingo, 31 de agosto de 2008

Destino


Tela de Von Gogh



Deixei-me estar

Ao longo dos mistérios,

Fiquei na perplexidade das coisas,

Na metafísica do universo.

Amei cada objeto, cada instante.

Vivi as incertezas dos labirintos.


Para além de meu ritmo

Respirei as constelações

E na orla de meu destino

Um mistério descansa.

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Desejo

Tela de Egon Schiele



Vem e sacia-me

Desta fome estranha,

Que cresce e possui-me.


Vem alimentar-me

Daquilo que excede,

Que é bem maior

E que me impele a ti.


Já não me basta

Esse alimento que

Quer-se sempre mais!


Meu desejo é chama

Que arde eternamente,

Que vem de não sei onde,

Que não tem fim nem começo,

Que está aquém de mim.


Disseco-me

Arrebato-me em ti,

Que fomenta o meu desejo.


Atenda-me agora

Tirano enigmático,

Interpreta-me com seus dedos,

Com suas interrogações,

Que incendiarei para ti.

O Crepúsculo

Ilustração de Kael Kasabian


A sede em minha garganta

É um metal de corte,
É uma voz que grita
Sobre o crepúsculo da morte.

O hálito do tempo
Trama o inconcebível.

Um rio de espadas

Empunhando gritos,
Crava sob meu corpo branco

Um delirante rito.


Aquele que chama

A aurora exangue,
Num clarão desponta

Rasgo de meu sangue.


A noite perdida

Dos meus dias findo.

Invade o tempo

Fixando sombras,

Para além de tudo,

Para além da vida.