quarta-feira, 15 de julho de 2009

Palavras

(Desconheço o autor)



A espessa neblina

Que encobria tuas palavras dissipou-se.

Despertaram de uma noite tempestiva.

Abriu-se uma clareira na floresta do silêncio.


Os sonhos que pairavam entre as folhas

Soltaram-se como borboletas na primavera.

Podemos fundir nossas palavras novamente

E será como o som de uma flauta

Tocada no crepúsculo.


Tudo será banhado com o primordial desejo

E arderá com o sentido que daremos a elas.

Essas palavras serão juntadas e reverenciadas

Como num cântico de mil solfejos.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Salomé

Tela de Canato



Sou essa Salomé que me falas.

Sou serpente a arder encantos,

Lânguida, sibilando,

Nos contornos que de mim exala.


Danço na esfera obscura dos sentimentos.

Oscilo na noite dos tempos,

Uma seda vaga de juventude e brilho.


Dispo a aura de fatalidade,

Para te dizer que tenho andado como a rosa,

Áurea trama abrindo pétalas como um livro.


Vem você que me espia

Prove desse veneno que pulsa.

Vem comigo e escuta,

O sibilar de meu encanto.

O Grito

Tela de Edvard Munch (O Grito)



Meus dias seguem como a cor da noite,

Meu pôr-do-sol grita em vários tons,

Mas é o vermelho sangue

Que se fixa em minha retina desesperada.


Carrego comigo um olhar de pranto.

A irradiação de meu espanto

É um sinal despedaçado,

Fixo nessa paisagem que conspira medo.


O ar quente oculta meu sinistro grito.

Atravesso a rua ouvindo gemidos guturais.

Os pássaros estão petrificados

Na paisagem derretida.


Sigo sozinho nessa estepe amarga.

Minha boca deixa flutuar nuvens

De melancolia,

Que se juntam no céu crepuscular

De minha angustia.

Trovejam chamas num céu de treva.


Um rio azul de lágrimas

Cobre-me de uma substância fria,

Até deixar-me transparente.

Não sou mais eu aqui, mas o grito

Levado pelo vento.

sábado, 30 de maio de 2009

Nosso Futuro

Tela de Dino Valls



Andei formulando um sentido,

Criei uma imagem num mapa

Que representasse seu enquadramento

Em minha vida.


Desordenaram-se as linhas

Apagando o caminho desenhado.


Um véu de emanações tardias

Enrolou-se nas coisas ditas.

Mostrando-me, enfim, a tênue linha

Que nos prendia.


Nossa vida singular era delírio,

Não passava de invenção,

De um plano imponderável.


Contido nas linhas escritas,

Foi incapaz de suportar a travessia,

De alcançar um outro lugar para a verdade.


Nosso futuro ficou sem infinito,

Ficou solto, em algum lugar

De meu plano escrito.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Descompasso

Tela de Marc Chagall


Sua mão que vem, minha mão que vai.

Descompasso da primeira vez.

Lembro os erros quando me entreguei.

Inventei você no vapor de minha pele.

Acreditei no breve olhar que guardei.

Roubei o mundo que você movia.
Sacudi os sonhos, até despertar.


Juntei os travesseiros na memória da mão,

Para colher o que restava da recordação.


Aquele caminhar a dois inventei,

Sua mão não foi, minha mão calei.

Miríade

Ilustração de André Toma


Não mais os confusos pesadelos,

Não mais os fantasmas

Rondando a fraqueza.

Alguns até tentaram

Arrancar-me confissões.

Inventaram mentiras, infâmias,

Para me amortalhar no medo.


Lutei no campo das angustias,

Levantei armas e vivi

A aventura do guerreiro.

Deitei o sangue no combate,
Para acreditar de novo,

Nos que fizeram trincheiras.

Perplexos, eles debandaram vencidos.


Voltei para o meu lugar

E vi lágrimas virarem

Miríade de pontos cintilantes,

A saírem dos olhos cheios

De orgulho de meu amor.

sábado, 16 de maio de 2009

A Mais Bela

Tela de Marc Chagall



Sombras quietas espiam entre os muros.

Esperam entre os choupos do jardim.

Não reconheço ninguém nelas.

São da cidade de pedras

Vigiam o tempo e esperam

A canção da partida.


Prestam homenagem a mais bela,

A que servia o vinho doce

Das vindimas do prado.

A que dançava à chuva,

Que deleitava o senhor da casa.


Em esplendor chega a amante

Dizendo querer à noite.

Falando do louvável passeio

Que fará no último de seus dias.


Sombras quietas surgem sagradas.

Seguem a lua carregando

A mais bela.


Vestem-na de ar e suspiros.

Derramam óleo ungido em sua alva fronte.


Seguem todas dignas,

Sem profanar o chão de estrelas.

Sobem ocultas pelas nuvens.

Rodopiam ao soprar do vento.

Cerram as pálpebras,

Todas juntas, para sempre.