quarta-feira, 24 de setembro de 2008

A Teia de Indra

Tela de Josephine Wall



Precipito-me no meio da faísca Cósmica.
Compartilho a consciência de um dedo divino,
Que aponta um clarão no horizonte.

Desfaleço ante a visão
De entrar na atmosfera densa.
Arqueio vulnerável, nas emanações
De lava fervente.
Meu corpo treme.
Apavoro-me desse sopro celestial
Que me retira do seio da certeza
Levando-me a essa teia de Indra.

Sigo uma estratégia silenciosa
Perfurando essa nuvem de gás,
Que embaça minha realidade.

Entrego-me a essa inevitável
Atmosfera terrena,
A esse compactuar humano
De querer ser cintilante.

Abro meu peito
Para sorver a delícia de estar
Nessa magia que infla o espírito.

Resvalo-me nesse fogo humano.
Derramo-me nesses instantes de alegria
Que seguem numa corrente selvagem.

Vou, mesmo sabendo
Que serei consumida
De minha primordial essência.

Que delicadamente, dia após dia,
Me afastarei até retornar
Ao que já era meu.

Um comentário:

Manuel Marques disse...

Um pequeno devaneio inspirado pelo teu magnificente poema!

Já há alguns meses que não escrevo um poema sequer, talvez a inspiração tenha sido levada por um qualquer raio cósmico daqueles que interagem com os átomos da camada superior da atmosfera e tenha seguido universo fora.

Ah eu sei que isso tudo está uns quilómetros acima da minha cabeça, mas também é verdade que quando dormirmos

(naquele dormir convencional, de olhos fechados, à moda antiga sabes, como cada vez há menos coisas...)

todos os mundos paralelos interagem e somos consumidos por todos os nossos medos e fantasias, escapando de forma inexorável a um destino ao qual queremos sempre voltar, muitas vezes sem saber se alguma vez lá estivemos.

Desloquemos os cometas em nome do amor pois então!