sábado, 3 de dezembro de 2011

Tecendo a Solidão




 Tela de David Edward Linn

Estive a decifrar enigmas
Em folhas soltas de teu livro sagrado.
Desvendei o labirinto de tua estranha linhagem.
Descobri que o rumor áspero de tua voz
Vinha do silêncio e da amargura.

Inconcebível grito de menino,
Pássaro perdido, de asas cortadas.
Falavas em meu ouvido sobre flechas desnorteadas,
Que riscavam o céu da noite.

A cada dia, tentei arrebatá-lo da sombra sinistra,
Das páginas cheias de lembranças de mortes,
E das trevas que escondiam vultos proscritos.
Mas seu coração se escondia num sótão em ruínas.

O teu corpo era um balançar de junco,
E a meia-noite era o melhor de teu dia.
Levei-te ao canto aconchegante dos carinhos,
E vi as estações estivais passarem sem ti.

Fui negada, à porta de tua tenda,
Quando te trazia um campo de estrelas.
Vi tuas armas suspensas, mostrando o fio das espadas.
As flores que havia deixado para ti caiam arrebatadas
Pela falta da água primordial.

Durante todo o tempo que te falei,
Tua sombra de pássaro andava pisando inconstâncias.
Caminhei pelas galerias secretas de tua alma,
E aprendi, ao longo do tempo,
A tecer contigo uma mitologia de solidão e espanto.

sábado, 19 de novembro de 2011

O Vaso


Tela de Jean-August Dominique Ingres


Chamei por um deus pequenino,
Um que cuidasse dos sussurros e suspiros.
Um que guardasse o calor das mãos,
E afastasse os nevoeiros que se formam no coração
Quando não há mais horizonte.

Chamei-o com a canção das nascentes,
Do recolhimento das lágrimas.
Cantei, com minha voz trespassada de inverno,
A música que um dia guardou o calor de um corpo.

Precisei clamar com brandura
A esse deus das flores e dos perfumes,
Para que me ouvisse ternamente,
E não transformasse minha alma, já enevoada,
Numa contemplação de catástrofe.

Da escuridão, renovada pelo crepúsculo,
Ele surgiu verde em translúcida esmeralda.
Era como um lago transparente
De amortecidos filamentos dourados,
Que dançava a minha volta com passos de veludo.

Sua face cheia de luz sibilava, ao meu redor
Um sopro de flauta, enquanto eu me curvava,
Num lugar de repouso junto às águas.

Mansamente, foi me tornando terra.
Sentia suas mãos sobre mim, alvas,
Cheias de seixos pequenos, moldando miragens
E sonhos dentro da escuridão do corpo.
Juntou em mim pedras que queriam estar vivas.

Pequenas ametistas foram colocadas em mim como um colar.
Dois braços simétricos, desenhados sob a cintura delgada,
E uma configuração de desenhos de pássaros,
Que voavam para dentro de um tapete oriental.

Vi pequenos seres de alma leve, que dançavam
Em grande alegria, espalhando faíscas luminosas.
Exultavam em contentamento ao deus pequenino,
Por ter me tornado vaso, de moldura ideal às oferendas.

Escreveram numa folha de papel
Que eu era um vaso de argila queimada.
Que guardaria as águas das oferendas,
E elas ressuscitariam os mortos.  

Que seria receptáculo de vindimas,
Das safras mais doces.
Que na casa do senhor do vinho,
Eu seria o espírito da alegria.

Nas noites quentes, eu teria que despertar
Para os amantes sedentos e afoitos
Me alcançarem, esparramando poças líquidas
Pelo assoalho noturno.
Mãos perfumadas me tocariam para me levar à boca.

Seria um vaso consagrado, para refletir
A lua no sepulcro dos amantes.
No tabernáculo, eu guardaria 
Ervas maceradas de encantamentos, 
Para celebrar as partidas.

Recolheria em mim o sumo
Que faz cerrar pálpebras para o sono
Dos que estão sendo eternizados.

Nos funerais, recolheria as flores e espalharia perfumes.
Avisaria as partidas, enquanto homens me levantariam
À cabeça, buscando a sombra daquele dia.
Represaria em mim lágrimas ocultas,
E viveria até o fim de tudo, bebendo a minha vida.

sábado, 5 de novembro de 2011

Uma Sombra






Desenho de Dan Thompson



(poema revisitado)


Sou o acaso, um desequilíbrio,
Uma sombra breve que teima em estar.
Substância indecifrável, quase ilegível.
Epiderme solta decifrando mapas,
Buscando lugares, sem nunca encontrar.

Meu olho gira ao redor das coisas,
Encontra vultos, silhuetas soltas.
Esse gosto ácido que me vem à boca,
É minha certeza de já estar morta.
Aqui, não há mais ninguém,
Quem sabe, um reflexo de alguém que foi.

Descubro a pele descarnando um gosto,
Só sei dos instantes desse encontro tosco,
Que em flashs breves brilha no meu corpo.

Condenada à vida, pairo nos meus dias
Carregando o fardo dos momentos foscos.

Rompe o ar deixando promessas,
De existência plena, de ilusão que vai.
De repente, um vento que gira,
Derrubando o que sou e o que fui lá atrás.

Num só mergulho eu sou de novo,
Uma sombra do acaso que não se desfaz.

sábado, 8 de outubro de 2011

Volta


Tela de Duffy Sheridan


Foi no limite de uma terra cáustica,
Dentro da zona do silêncio,
Que o teu corpo se desprendeu do meu.

Fui consagrada à eternidade,
E a sua solidão.
A voz que continha as palavras
Sacramentaram o meu coração,
Rezando sacrifícios.

Vi a transparêcia da distância
Que nos habitava.
Aquela parte, que nos ligava como um,
Perdeu-se na ilusão dos dias,
E a tua alma levou a minha.

Fiquei vazia como uma casa abandonada,
Por isso te peço:
Volta antes que a colheita se perca,
E a terra se torne envelhecida.

Volta a regar meu campo com tua alegria.
Traga teu corpo de frutos enlouquecidos,
E preenchas os espaços onde escureço.
Sê água lírica em minha boca,
Antes que meu sangue comece
A escrever nossos nomes.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Amor


 Tela de Andrew Wyeth

A cada dia esperei
Por um vento que me acalmasse,
Que abrandasse a brasa que ardia,
Pesando em minha boca.

Quieta, ansiava como louca
Tua boca sob a minha,
Para voltar a tremer.

O tempo virou tormento,
Esperando esquecimento,
Que eu queria ter em mim.

Indiferente, tu colocaste
Os dias em meu rosto,
Fazendo-me singrar
Num mar de lágrimas e dor.

Tornei-me cega e perdida,
Sem sua boca ferida
De beijos que dei em ti.

Por tudo que fomos um dia,
Só as lembranças não bastam,
Se trago no peito essa dor.
Tens que voltar com mãos de astro,
Marcando-me um lastro,
Numa linha de amor.

domingo, 18 de setembro de 2011

Arbusto em Chamas


Tela de Jia Lu



Os dias de sol habitaram novamente
O meu corpo gelado,
Inundando de azul as corredeiras
Dos meus olhos turmalina.

Em meu corpo, acenderam-se fogueiras,
Com folhas secas de outros outonos.
Labaredas arderam em faíscas,
Que correram pela pele
De arbusto em chamas.

Diziam que o teu segredo
Era o meu segredo, por isso,
Aquietei-me no sagrado de tua boca,
E no êxtase do desdobrar de flores.

Meu ventre se comovia,
E se abria em celeiro de sementes.
Recolhia o teu fruto doce,
Para relâmpagos surgirem no tempo,
Fazendo nascer constelações.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Noite Morta

 Tela de Sol Halabi



Não tive lugar onde descansar
Porque me faltou a pedra.
O tapete cotidiano foi dilacerado
Por passos que guardavam o caminho
Que levava vento ao coração crepuscular.

Das sombras ecoavam relâmpagos
Que se desprendiam submersos em vertigens.
Eu estava invisível e era como o sal das águas.
Era levada por um vento de nevasca,
Enrolada em mortalha negra.

As noites se juntaram para formar
Uma aurora de silêncio.
Folhas se soltavam tocando o chão
Ferido de pedras.

Eu me emaranhava na última réstia de luz,
Sozinha dentro de meu vestido de espinhos.

A minha morada é um lugar de filamentos,
Musgos e uma densa nuvem de poeira dourada.
Reconheço tua voz rarefeita, teus pés de trovão,
Que me acorda inconsolável pela noite morta.