sexta-feira, 17 de outubro de 2008

A Voz

Tela de Edward Robert Hughes



Fiquei olhando as palavras saírem de sua boca.

No começo você forçava uma animação.

Elas iam se amontoando no canto da boca,

Até se soltarem numa fluidez nunca vista.


Eu me incorporava no som de sua voz,

Já não estava mais presa ao que dizias,

Mas por vê-las se tornarem pássaros,

Voarem livres e

Rodopiarem no céu de sua boca.


De repente, impondo uma disciplina,

Virava um murmúrio,

Que de tão suave fundiam-se no ar.


Naquele silêncio de palavrinhas engastadas,

Assustei-me com minha urgência

Em querê-las para mim.

Sua boca celebrava meu desejo.

Que solenemente pedia em dialeto.


A voz suplicava uma energia,

As palavras apenas emergiam

Em chamas reluzentes,

Engasgando nas pausas,

Afundando como brasas.


Até que decidiram partir

Mudando-se para a minha boca,

Que ardia por lhe falar.

3 comentários:

Dolores Quintão Jardim disse...

As palavras!


As que ferem e as que alegram..

Qual será a verdadeira?

Belo poema,Rachel!

Manuel Marques disse...

Sendo a boca e as palavras que dela saem uma das formas mais encantadoras que me atraem numa mulher, este poema torna-se-me ainda mais precioso.

Posso-te com toda a propriedade falar da majestosa colocação de cada verso, da nobreza de cada gesto e da suprema energia que sai de cada palavra, algo que flui com uma simplicidade impressionante em ti!

Tudo isto num singelo poema que só alguém predestinado consegue fazer saltar para o mundo que o rodeia.

Sabes, é quase como estares a falar para todos nós que 'ardemos' por te ler!

Majestoso poema querida amiga!

docerachel disse...

Manuel quando eu falo de amor falo para vcs todos que ardem por ele.