sexta-feira, 3 de abril de 2009

Anjo Guardião

Tela de Marc Chagall



Estou cansada de fugir,

Cansada de mentir

Que não sei de ti,

De tua presença constante.


Sinto teu hálito de ar em meu rosto.

Teu roçar de penas

Em minhas costas quando me deito.


Amigo dos meus dias,

De meu coração inquieto,

Da chama que arde em meu seio.


Ainda estas comigo,

Mesmo que te negue cada dia

E que te renuncie todas as horas,

O nosso encontro cada noite.


Agora já não posso mais te negar,

Tenho a alma embriagada de ti

E a quero ainda mais

Nesse estado de euforia.


Quero que meu êxtase se agrave

E eu me dobre a ti.

Que o espaço entre nós

Seja eterno.


Minha alma é criança novamente

Se estas aqui.

Tua luz é como espada

Enterrada em meu coração.


Agita o meu vestido,

Transpassa minha calma,

Cubra-me com tuas asas

De anjo guardião.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Partida

Tela de Christopher Gallego


Não me olhou mais de frente,

Arrancou a pele velha,

Marcada pelas cerimônias.

Seu corpo flácido, envelhecido,

Agora buscava novas promessas.


Era a jornada

Fluindo para o fim das coisas,

Buscando o fulgor perdido

Em algum lugar do passado.


Eu o quis, mas não era humano.

Era um ser obsessivo e intemporal,

De coração cimentado,

Seco para as palavras de súplica.


Sua casa ficou vazia,

O sol fez secar as plantas da varanda.

Eu vi os defumadores sem incenso,

E a solidão levantando as cortinas.


O lugar virou cemitério,

Todos morreram

Com o coração perfurado.

Fiquei surda com o silêncio da rua.

terça-feira, 24 de março de 2009

Vestígios

Tela de Adonis Kuzer


Espalhamos pelo chão nossos desvios.

Estamos vivendo o tremor da felicidade.

Dividimos pensamentos

E a densidade das coisas.


Aprendemos a imortalidade

Quando somos dois

Nesta cama de folhas.


Estou feliz

Quando a janela de seus olhos me anuncia.

Todavia, desconheço as águas desse regato

Que corre à revelia,

Tentando se entranhar em nossa trilha.


Essa água lamacenta

Que se aproxima de nossos pés.

Essa sombra que se alonga

Com asas de escuridão,

Deixando-nos com vestígios

De profunda solidão.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Dilúvio

Tela de Gustav Klimt


Líquida me tornei em teus braços,

Escorri-me no que era exato,
Derramei-me em teu dorso quente,

Que se dobrou em concha a me represar.


Procurei fendas, escoei regatos,
Encontrando braços a me amparar.

Derrubei barreiras, modulei mil voltas,

Até ser inteira em um jarro teu.


Fui bebida aos goles de quem febre ardia

E foi tão nascente essa sede louca

Que senti sua boca, eterno sugar.


Num fervor que pede, consenti respingos,

Dessa minha água eu fiz derramar.
Evaporei gotas ondulando pele,

Escorri-me em névoa para te alcançar.


Penetrei abismos e fui sacudida,
Até dissolver-me neste teu olhar.

Escoei doçura num último espasmo

De êxtase líquido, por te abraçar.


E virei dilúvio, encharquei-me em brasas,
Implorei tua boca para me beijar.

Tive o paraiso, bolhas de espuma,

Agora estou quieta neste teu olhar.

sábado, 21 de março de 2009

Alumbramento

Tela de Donato Giancola


Se proibirem seu amor
Grite.

Pegue outra via,
Aquela baldia.

Não perca em nada
O amplexo do pulso.
O átimo que voa

No carrilhão das horas.

Desobedeça a regra,
Desmanche o mistério,

Resvale no imponderável,
Crie o momento da vertigem

Para esse amor crescer
Ao som da eternidade.


Deixe que ele viva

Através da loucura,
Do encontro que chega assim

Deslocando o pensamento.


Ele vem contra vontades,
Se institui contra a corrente

E diz que
Amor é momento,

É maior que alumbramento.

Dança Sufi

O Olho de Deus



Dancei ao som da citara e

Girei com o universo

Nas batidas da tabla

Que ressoava no coração.

Incendiei como uma tocha,

Juntei-me a imensidão.


Rompi o horizonte

Perseguindo o sol viajante.

Agora, toda a terra vacila

Aos meus pés embriagados.


Danço para ser folha,

Esqueço o corpo e o calafrio.

Estou seguro neste girar eterno,

Conheço o segredo

Para ser Ele.


Giro incandescendo

Na imensidão cósmica

O êxtase místico.


Sou o sol

Irradiando um caminho.

Vou estar

Com aquele que tudo vê,

Que tudo ouve.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Olhos Vazios

Tela de Dino Vaals



Quando me olhas morro um pouco,

Se não me olhas morro mais,

Se não te vejo fico louca,

De nada sou mais capaz.


Se em teu rosto não vaga nuvem,

No meu, elas são demais.

Tormento de chuva fina,

Alcança clarões, me desfaz.


Sigo teus passos, teu reflexo,

De coração aos pedaços

Fascinada pelo aperto

De tuas mãos em meu amplexo.


De tudo que me tiraste

Ficou somente o abismo.

Um frio entre as cobertas

E um par de olhos vazios.