terça-feira, 14 de junho de 2011

Noites Adamantinas


Tela de Steven Kenny


Olhos me vigiavam todas as noites,
Flutuando dentro de um rosto jovem e inquieto.
Perfil esculpido de ritos e lumes,
Sufocado de pequenas palavras e lágrimas fugidias,
Respirava um ar petrificado de homem que espera.

O templo de trevas e dentes
Sacudia suas muralhas de pedras verdes.
Uma argila densa e estruturada o encobria.
O vaso do esquecimento prendia o seu corpo
No fundo da noite com as mãos atadas por cipós.

Procurei por muito tempo esse homem
Que me entoara o canto lunar, e falava da
Luz planetária que pairava sob minha cabeça.
Cobriu-me muitas noites com o manto tecido
Por anéis de fumaça dos sonhos.

Trazia na boca as palavras dos adivinhos
E dizia que em meu corpo o amor cabia inteiro.
Lentamente desenhava, com sangue e terra,
Poemas sobre um lugar de cores e música,
Fazendo nossas vidas se estamparem
De pirilampos e noites adamantinas.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Bramindo com Espadas


Tela de Graham Dean


Despedi-me das coisas
Que me falavam sobre a noite,
Dos perfumes e dos reflexos das flores.
Despedi-me dos azuis que banhei meu espírito,
E das aves que orquestraram o meu paraíso.

Fui atrás de um tropel de nuvens selvagens,
Corcéis de crinas erguidas, sem freio e comando,
Que me guiavam desembestadas pelo mundo.

Emaranhei-me nas ruas riscadas de vento,
Que, eterno, vigiava o tempo.
Entreguei-me a velhos desejos,
Inclinei-me a suas vestes de fogo,
Até queimar-me dentro de antigos sonhos.

Dentro da pele de cetim, nas mãos de esfinge,
Transbordei em promessas e girei em círculos,
Até dormir onde mora o destino.
Sim, eu deslizei até a porta do arrebatamento.

Obstinado é o segredo do caminho,
Lento, chama-me para arder na confusão dos dias.
Saio de mim bramindo com espadas,
Cruzo esquinas cheias de futuro,
Invado a órbita inexorável dos segundos,
Que me cobre por completo.

Retrocedo até a eternidade, refazendo o caminho,
De quem estava desaparecido,
Junto dele, ponho-me a ver o nascer do Sol,
Sobre a harmonia perplexa do meu mundo.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

A Minha Voz


 Fotografia de Eugeny Kozhevnikov


Ouça a minha voz
Que te fala com brandura.
Leva-a contigo,
No coração e na boca.

Fala por mim quando
Estiveres com os teus.
Dize com a minha voz,
Sobre a distância dos caminhos,
E sobre o silêncio que mora
Na alma das coisas.

Fala sobre os minutos
E o indecifrável tempo.
Dize que a solidão é líquida
E preenche um oceano.

Fala dos raios e dos trovões
Que açoitam como um chicote
O céu tenebroso e sombrio.

Sobre os negros insetos
Que adivinham o sangue
Nos corpos distraídos.

Que não resta mais nada
Sobre o céu.
Que só ficou um pó agonizante
Espalhado pelo vento.

Que o sabor amargo da vida
Deslizou para o centro de um corpo,
E que olhos viram
Dois seres perdidos, sem direção.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Menos que a Morte

Tela de J.M.W. Turner



Sou uma estrangeira em mim.
Torno a voltar num país de sonho,
De luz e de infância
Perdida num vendaval de espumas.


Aquela voz que me chamava
Já não existe mais,
Mudou-se para o desconhecido.
Estou só num mundo de lembranças
Que brotam como erva-daninha,
Sempre e sempre.


Estou quieta numa morna solidão de tédio
E minha esperança é essa voz
Que ecoa sem se importar com nada.

Vem me falar ainda uma vez.
Acalma-me neste país de solidão.
Traga-me um sopro de alento
Que morro de estar viva.


Nesse insondável mistério de você
Que de tão perto se faz tão distante,

Que se mantém escondido de mim,
Num lugar de sonho.

Pare de mostrar-me a todo instante,

Que é preciso menos que a morte
Para me fazer morrer.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Aprisionada


 Fotografia de Eugeny Kozhevnikov


Aprisionada num céu de cor sangrenta,
Amparo em meus dedos
Uma grinalda de lágrimas cheias de segredos.

O sorriso resvala numa sombra perseguidora
Que me acompanha pela vida.
Falta-me voz para falar o que me falta.
Tenho o coração coberto de silenciosos gritos.

Convivo com invisíveis seres de penumbra,
Que só se mostram nas trevas.
Durante o dia sou chuva empoçada
Num impenetrável sorriso.

Tenho nos olhos uma luz esfaqueada,
Repleta de sinais que descem
Formando desenhos de labirintos.

Vim para ser sonhada, querida e fortalecida
Por um guardião do tempo,
Mas fui esquecida por sua escolha.
Fatigado, derrubou-me.

domingo, 15 de maio de 2011

Ranascida de Mim

Tela de Susan Hall



Junto flores de silêncio e sonho,
E troco por um vento de canto sibilante.
Decifro o código das dores, para manter
O fogo que arde em mim.

Deito no azul turquesa das águas fluviais,
E sigo num remanso de esperança.
Heras de veludo me cobrem,
Lembrando o som de meu nascimento.

Preparo o caminho verde de musgos frescos,
Para meus passos se tornarem confiantes
E renovados.

Desvendo todo o segredo que queima
Minha garganta e o meu ventre
Quando pronuncio o seu nome.

Torno-me primavera em pleno inverno,
E um deus de luz me conduz
A lençóis de névoa e pétalas.

Descanso em seu colo de ternura,
Em meio a uma fragrância de lírios,
Enquanto ele sussurra um verbo vivo,
Dizendo que eu estou renascida de mim.

A Letra

 Ilustração de Elsa Brondo


A letra me alerta.
Abro cada palavra
Com faca de ponta.
Afino o som com golpes
Até chegar nos ossos.

Não encontro leveza nas palavras,
Mas restos carcomidos de tinta seca.
Decupagem de pedaços recortados
De meus sentidos inexatos.

Furto velhos hábitos
Costurando um fio
De linha tinta de sangue,
Que exangue,
Um perfil desesperado.

Encontro palavras efêmeras,
Que renunciaram esperanças.
Raspo cada letra com cacos de vidro.

Enxergo mensagens ocultas
Que suspiram na folha cortada.
Escrevo novamente a dor,
Com letras de silêncio.