quarta-feira, 25 de junho de 2008

Nós Duas

Tela de Luis Ricardo Falero



Acima de mim
Caminha a lua.
Num céu de abismo,
Estrelas alinhadas me olham
Sentindo vertigem.

Abraço à noite imensa
E sou enlaçada pela bruma noturna.
Incomensuráveis
São os vultos que me acompanham.
Uma perspectiva disforme
Molda imagens estranhas
Nas fachadas das casas.
Sinto-me exilada em minha terra.

Provo a nostalgia lancinante
Daquilo que me faltava
E assimilo inteira
O objeto de minha procura.

A lua se arredonda para mim
Revolvendo-se em círculos.
Eu me torno crescente para ela
E juntas vagamos à noite inteira.

domingo, 22 de junho de 2008

Voo

Tela de Edward Burne-Jones


Ave perdida
Conta-me à ventura do voo.
Vem trazer-me a brisa das asas.

Noturno o canto que chega
Embalando o oculto de mim.
Desperta-me desse sono de pedra.
Solta-me no ar em hélice esquecida.

Atiro-me à janela.
Vou de encontro à parede.
Ali, com cores de sangue,
Desenho-me, pássaro perdido.

sábado, 24 de maio de 2008

O Festim

Tela de Zdzislaw Beksinski


Cubistas realistas
Penetram entranhas,
Invadem veias, células,
Transmutam matéria palpitante.

Intensa cor de cidade morta,
Dilacera entranhas,
Consome o verde escondido
Que oferece meu coração jovem.

Capturador de almas
Irrompe carnificina,
Draga flores do meu jardim.
Meu sacrifício é inútil
Nesta guerra devastadora.

Traço trincheiras,
Faço ressurgir corpos imolados
Numa dança macabra.
O espírito sublime surge
Procurando sua própria sombra.

Eu, missionária de mim mesma,
Nesse festim diabólico
Danço na plataforma
Da geração perdida
A canção da vida perigosa.

Sou uma torrente,
Girando num sapateado louco,
Grito aos quatro ventos:
Quem mata
Não participa do banquete.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Mãe

Tela de Gustav Klimt


Quando eu ainda não era,
Tu estavas ao meu redor.
Flutuava em águas mornas
Sentindo-te tecer meu existir.

Mergulhavas-me num remanso
De pétalas inocentes.
Mãos de conchinha a tocar-te,
Ansiando novelo de lã do abraço.

Sonhávamos tu e eu,
Botão de rosa a nascer.
Acomodavas teu ventre
No regaço de ternura,
Quando me alongava da ventura
De te ter perto de mim.

sábado, 26 de abril de 2008

Escalacrada

Tela de Salvador Dali


Paralelos que se encontram no infinito,
Sofrem desvios,
Chocam-se no tempo.

Arabescos interceptam linhas
Na solenidade do traçado.

É quase nada
Essa força que empurra.
Incômoda e insidiosa,
Surgindo de um universo deslocado,
Como uma energia pesada,
Brotando da consciência.

Meu corpo
Vibra com pensamentos.
Grita sons imaginários
Da idéia dissonante
De fantasia sufocada.

Vergo ao peso
Que a amargura trás
Ao arrastar o tempo.

Retrocedo e sou levada pelos ventos.
No turbilhão das disputas,
Finjo dormir
Para não ser achada.

Escalacrada sob os paralelos,
Na escuridão mais profunda,
Eis minha única certeza:
Sou só e nada é meu.
Termino meu passo,
Antes de conhecer o seu!



sábado, 19 de abril de 2008

Partículas de Sonho

Tela de Jacob Collins


Provei a doçura da brisa
Na manhã de nossa história.
Recolhi musgos,
Depois de sua chuva em mim.

Cobri nossos corpos,
Com a colcha pespontada
De folhas ardentes.

Bebemos do veneno de meu ventre
E um sabor fresco de chuva,
Deixou seu corpo doce,
Pronto para semear.

Partículas de sonho almiscarado,
Cintilam agora, irresistíveis,
Dentro de mim.

Espartilho

Tela de Ego Schiele


Inclino, declino
Na onda obliqua
Do seu balançar.

Espartilho na dobra,
Arqueia e desdobra,
Aperta o meu despertar.

Dedos de talhe,
Inquietos no entalhe,
Quer se vingar.

Dorso de ninho,
Desce em torvelinho,
Louvando um cantar.

Orvalho de sonho,
Desprende os laços
Que em volta, dá voltas.
Solta meu respirar.